Cardiomiopatia Dilatada: tudo que você precisa saber

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Fala, pessoal! Já ouviram falar de cardiomiopatia dilatada? É uma condição cardíaca de grande relevância clínica, sendo um achado comum em ecocardiogramas, visto que se associa a patologias frequentes na população, como hipertensão arterial sistêmica e insuficiência cardíaca.

Vamos entender mais sobre ela então?

O que é Cardiomiopatia Dilatada (CMD)?

A Cardiomiopatia Dilatada (CMD) é uma condição cardíaca caracterizada pela dilatação do coração e diminuição de sua força contrátil, ou seja, há aumento e disfunção sistólica do Ventrículo Esquerdo (VE) ou em ambos os ventrículos. É a mais frequente das cardiomiopatias e é considerada uma das principais causas de insuficiência cardíaca (2%) e transplante cardíaco, e pode ainda levar o paciente a morte súbita.

A fisiopatologia da CMD ainda não está totalmente esclarecida, mas envolve um processo de remodelamentoventricular, com formação de áreas de fibrose entremeadas ao tecido cardíaco, que resulta em sua dilatação, e com o aumento progressivo do tamanho dos ventrículos, há uma diminuição da função ventricular, além de outras alterações, como anormalidades no sistema de condução, arritmias ventriculares, tromboembolismo e insuficiência cardíaca. Esse remodelamento pode ser causado por inúmeros fatores, como estresse oxidativo, alterações no citoesqueleto das células, inflamação e disfunção mitocondrial.

Por definição, os pacientes com CMD apresentam disfunção sistólica e podem ou não apresentar sintomas evidentes de insuficiência cardíaca, e ainda que a maioria apresente sintomas, alguns podem ser assintomáticos pelos mecanismos compensatórios que desenvolvem. Embora seja, geralmente, progressiva, a CMD pode ter um início abrupto, sendo a miocardite o principal diagnóstico diferencial nesses casos.

Quem é mais afetado pela CMD?

A faixa etária de maior acometimento é dos 20 aos 50 anos, e a condição é mais frequente no sexo masculino. Nos portadores de insuficiência cardíaca (IC), sua prevalência é maior, tendo em vista que a CMD é uma das causas da IC.

Como fatores de risco para o desenvolvimento da CMD, temos: idade avançada, história familiar de cardiomiopatia (mutações genéticas), uso de drogas (principalmente álcool e cocaína) e infecções virais (alguns vírus tem maior tropismo para o miocárdio, como coxsackie, adenovírus e parvovírus).

O prognóstico está ligado ao tempo de início da doença e sua evolução, além do grau de disfunção ventricular e aos sintomas. Também depende da etiologia, gravidade e resposta ao tratamento instituído. Muitos dos portadores de CMD evoluem para transplante cardíaco ou dispositivo de assistência ventricular, e quase 50% dos pacientes morrem em 5 anos. Pacientes com sintomas em repouso e/ou que sejam incapazes de se exercitar geralmente têm o pior prognóstico. Quanto mais cedo forem diagnosticados e tratados, melhor será o prognóstico desses pacientes.

2. Sintomas e Suspeita Clínica

Pacientes portadores de CMD podem ser desde assintomáticos até apresentarem sinais e sintomas de insuficiência cardíaca. São apresentações clínicas comuns:

  • Insuficiência cardíaca progressiva: é comum que os pacientes apresentem dispneia aos esforços, ortopneia, dispneia paroxística noturna, fadiga, edema de membros inferiores, além de achados característicos de IC também ao exame físico, como turgência jugular, derrames cavitários, hepatomegalia congestiva, sopro cardíaco devido à dilatação das câmaras e B3.
  • Arritmias e distúrbios de condução, podendo ser referidos como palpitações pelos pacientes.
  • Predisposição a fenômenos tromboembólicos (formação de coágulos).
  • Risco aumentado de morte súbita.

Nos pacientes assintomáticos, podemos suspeitar de CMD caso apresentem aumento da área cardíaca em uma radiografia de tórax, ou ainda naqueles com histórico familiar de CMD e/ou história de morte súbita antes dos 35 anos em familiar de primeiro grau.

3. Tipos e causas da Cardiomiopatia Dilatada

A CMD é classificada em primária e secundária, dependendo da causa ou origem da doença.

A etiologia mais comum é a idiopática, mas a CMD pode ter predisposição familiar ou genética, ou ainda ser secundária a alguma outra condição.

CMD Primária

A forma primária pode ser idiopática, isto é, sem causa subjacente identificável, ou ter predisposição familiar ou genética, e tem sido associada a diversas mutações. A forma genética/familiar representa cerca de 20% a 35% dos casos, sendo a transmissão autossômica dominante a via principal, mas também podendo ser relacionada a defeitos mitocondriais e doenças ligadas ao X.

Há, ainda, uma forma adquirida da doença, a Cardiomiopatia Periparto, que acomete mulheres (geralmente multíparas, com mais de 30 anos) sem cardiopatia prévia, com o desenvolvimento de sintomas de insuficiência cardíaca no último trimestre de gestação ou em cinco meses após o parto.

CMD Secundária

A CMD Secundária ocorre como consequência de alguma outra doença. É fundamental excluir essas condições ao investigar a CMD primária. Exemplos de causas secundárias incluem:

  • Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS).
  • Doença Arterial Coronariana (DAC).
  • Abuso de álcool por mais de 5 anos.
  • Medicações, como antraciclinas e alguns antineoplásicos.
  • Deficiência de tiamina (doença cardíaca do beribéri).
  • Taquiarritmias.
  • Doenças autoimunes, como esclerose sistêmica, lúpus eritematoso, artrite reumatoide.
  • Doenças endócrinas, como disfunções tireoidianas, feocromocitoma, doença de Cushing.
  • Miocardite infecciosa, que pode estar associada à infecção viral (ex. coxsackie B, adenovírus, parvovírus B19, herpesvírus e vírus Epstein-Barr), à doença de Chagas e doença de Lyme.

Segue abaixo uma tabela que resume as principais causas de CMD.

4. Como é Feito o Diagnóstico da CMD?

A partir da suspeita clínica, a investigação para o diagnóstico da miocardiopatia dilatada deve começar com a realização de exames complementares, como eletrocardiograma (ECG), radiografia de tórax e, principalmente, ecocardiograma.

  • Eletrocardiograma (ECG): pode evidenciar aumento atrial, sobrecarga ventricular, alterações de repolarização e até arritmias, como fibrilação atrial. No caso da doença de Chagas, temos um achado clássico: a associação de bloqueio atrioventricular de 1º grau, bloqueio de ramo direito e bloqueio divisional ântero-superior esquerdo.
  • Radiografia de Tórax (RX): nesta, é possível identificar aumento global da área cardíaca. Pode-se ainda identificar sinais de congestão pulmonar nos pacientes que se encontram em descompensação da doença.
  • Ecocardiograma: é um exame que permite diagnóstico e seguimento dos pacientes com CMD. Permite avaliar o grau de dilatação das câmaras cardíacas, medindo suas dimensões, e estimar a função ventricular, através da medida da fração de ejeção, permitindo identificar, se presente, a disfunção sistólica. Ainda, permite detectar a presença de trombos intracavitários, e avaliar/quantificar regurgitações valvares (mitral e tricúspide), para definição de valvopatias, as quais podem estar presentes na CMD pela dilatação das câmaras.

5. O Tratamento da Cardiomiopatia Dilatada

O tratamento da miocardiopatia dilatada é baseado no manejo apropriado da insuficiência cardíaca (IC), bem como no controle das arritmias. Tendo em vista que há divergências no tratamento da IC de fração de ejeção preservada e reduzida, a conduta a ser tomada na CMD depende dessa diferenciação dos pacientes. Assim, semelhante ao tratamento da IC, o uso de beta-bloqueadores, vasodilatadores (IECA ou BRA), espironolactona, outros diuréticos e digitálicos pode ser feito. No caso de pacientes que desenvolvem arritmias secundárias a CMD, pode ser necessário o uso de anticoagulantes e anti-arrítmicos.

Em casos de evolução desfavorável, deve ser considerada a avaliação dos pacientes quanto à indicação de transplante cardíaco, que é a única terapia curativa nesses casos.

Nos casos de CMD secundária, deve-se tratar a causa de base, como na doença cardíaca por beribéri, na qual a reposição de tiamina é essencial, devendo ser feita por via inicialmente endovenosa (dose de ataque de 100 mg) e posteriormente transicionada para a via oral (dose de manutenção de 25 mg/dia por 1 a 2 semanas).

Fechamos aqui nossa grande revisão de cardiomiopatia dilatada, uma condição que “vira e mexe” encontramos nos ecocardiogramas dos pacientes, e que vale a pena conhecer para não se desesperar e saber que condutas tomar frente a esse achado. Abraço!

Referências

Consolim-Colombo,F. et al. Título: Tratado de Cardiologia SOCESP, quarta edição, editora Manole

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Hellen Sanches Pitaluga

Hellen Sanches Pitaluga

Meu nome é Hellen Sanches Pitaluga e sou natural de Goiânia. Sou formada pela Universidade de Ribeirão Preto desde 2019. Residência em Clínica Médica no Complexo Hospitalar Prefeito Edivaldo Orsi da Rede Mário Gatti em Campinas, São Paulo. Amo clínica médica e sua diversidade, mas quando se trata da cardiologia o há um pouco mais de amor.