Foi divulgada, em fevereiro de 2026, a nova Diretriz da American Heart Association (AHA) e da American Stroke Association (ASA) para o manejo precoce do AVC isquêmico agudo.
O documento consolida avanços importantes da última década e traz mudanças práticas relevantes, especialmente em trombólise intravenosa, neuroimagem e trombectomia endovascular, reforçando uma mensagem central: o tempo continua sendo o principal determinante de prognóstico.
A diretriz atualiza fluxos assistenciais, amplia critérios de elegibilidade para reperfusão e busca reduzir atrasos evitáveis no atendimento ao paciente com AVC.
O AVC isquêmico agudo ocorre quando há interrupção súbita do fluxo sanguíneo cerebral, geralmente por trombose ou embolia arterial, levando à isquemia e possível infarto do tecido cerebral. Ele corresponde à maioria dos casos de AVC e representa uma das principais causas de morte e incapacidade funcional no mundo.
O manejo é uma emergência médica, em que cada minuto sem reperfusão resulta em perda neuronal significativa.
A Diretriz AHA/ASA 2026 atualiza recomendações baseadas em evidências recentes, organizadas por classe de recomendação e nível de evidência, com foco no cuidado hiperagudo. O documento orienta desde a organização do sistema pré-hospitalar até decisões refinadas de trombólise, trombectomia, controle hemodinâmico e suporte clínico.
A diretriz reconhece a tenecteplase (TNK) na dose de 0,25 mg/kg (máximo de 25 mg) como opção capaz de substituir a alteplase na trombólise intravenosa até 4,5 horas, com recomendação Classe I. A administração em bolus único simplifica o processo, reduz erros e pode encurtar tempos porta-agulha. A dose de 0,4 mg/kg não é recomendada devido a maior risco hemorrágico.
Para pacientes elegíveis à trombólise dentro de 4,5 horas, a TC de crânio sem contraste é suficiente para decisão terapêutica, sem necessidade de aguardar exames laboratoriais ou imagem avançada. Em janelas estendidas (4,5–9 horas ou wake-up stroke), a diretriz recomenda critérios de mismatch por RM (DWI–FLAIR) ou TC/RM de perfusão para seleção de pacientes.
NIHSS baixo não deve ser usado isoladamente para excluir trombólise. O guideline enfatiza a avaliação de déficit clinicamente incapacitante, mesmo em AVC leve. Por outro lado, a trombólise não é recomendada em déficits leves não incapacitantes, e o uso muito precoce de antitrombóticos adjuvantes após trombólise é desencorajado devido ao aumento do risco hemorrágico.
A diretriz traz um dos avanços mais impactantes ao recomendar trombectomia em pacientes com grandes núcleos isquêmicos (ASPECTS 3–5) entre 6 e 24 horas, como Classe I em pacientes selecionados. Além disso, a trombectomia para oclusão de artéria basilar passa a ser recomendada até 24 horas em pacientes com NIHSS ≥10 e PC-ASPECTS (Posterior Circulation) ≥6.
O guideline mantêm as recomendações anteriores e alerta para os riscos do controle pressórico intensivo após reperfusão bem-sucedida, recomendando manter PA <180/105 mmHg e evitando alvos mais baixos, que se associam a pior desfecho. No controle glicêmico, a meta recomendada é 140–180 mg/dL, abandonando estratégias intensivas devido ao risco de hipoglicemia.
| Tópico | Prática Anterior / Consenso Prévio | Nova Diretriz AHA/ASA 2026 |
| Escolha do Trombolítico | Alteplase era o padrão-ouro absoluto para a maioria dos casos. | Tenecteplase (TNK) 0,25 mg/kg é consolidada como alternativa Classe I, equivalente à alteplase. |
| Trombectomia (Large Core) | Grandes núcleos isquêmicos (ASPECTS baixo) eram frequentemente considerados zona de futilidade. | Recomendação Classe I para pacientes selecionados com ASPECTS 3–5 (janela 6–24h). |
| Trombectomia (Basilar) | Evidência menos clara e critérios menos padronizados. | Recomendação forte para oclusão de basilar até 24h (NIHSS ≥10 e PC-ASPECTS ≥6). |
| Fluxo de Imagem (<4,5h) | Tendência ao uso de imagem multimodal (AngioTC/Perfusão) de rotina em alguns centros. | TC de crânio sem contraste é suficiente; não se deve atrasar a trombólise aguardando imagem avançada. |
| Alvos de Pressão Arterial | Busca por alvos mais intensivos (<140 mmHg) era comum em alguns serviços após recanalização. | Alvos intensivos (<140 mmHg) pós-recanalização são considerados prejudiciais (Classe 3: Harm). Manter <180/105 mmHg. |
| AVC Leve (NIHSS 0–5) | Muitas vezes excluído da trombólise apenas pelo score baixo. | Decisão baseada em ser “clinicamente incapacitante” (critério BATHE), não apenas no valor do NIHSS. |
| Controle Glicêmico | Uso de insulina IV para alvos rigorosos (80–130 mg/dL) em alguns protocolos. | Alvo recomendado de 140–180 mg/dL; estratégias intensivas não trazem benefício e aumentam risco. |
A Diretriz AHA/ASA 2026 reforça uma abordagem mais pragmática, segura e baseada em evidências para o AVC isquêmico agudo. Ao ampliar indicações de reperfusão e simplificar fluxos, o documento contribui para que mais pacientes sejam tratados de forma adequada, sem aumentar riscos desnecessários.
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Professora da Medway. Formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Residência em Clínica Médica (2019-2021) e Medicina Intensiva (2022-2025) pela Universidade de São Paulo (USP - SP). Siga no Instagram: @anakabittencourt