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Queimaduras elétricas: do “choquezinho” ao caos

Fala, galera! Nós já temos alguns textos falando sobre queimaduras e seus diversos aspectos aqui no blog, mas hoje vamos conversar sobre um tipo específico delas: as queimaduras elétricas, que ocorrem quando uma corrente de alta energia viaja pelo corpo devido ao contato com uma fonte de energia.

As lesões ocorrem por conta passagem de corrente através do corpo com um efeito de arco elétrico: o corpo, dessa forma, transforma eletricidade em calor e gera as queimaduras. Assim, conseguimos entender que nem sempre a aparência externa diz corretamente a gravidade das lesões, porque, na verdade, podem ter sido os órgãos internos que sofreram!

imagem ilustrativa de queimaduras elétricas
Saiba mais acerca das queimaduras elétricas

Como avaliar pacientes que tiveram queimaduras elétricas

A primeira coisa que precisamos lembrar é que esses pacientes são vítimas de trauma, então vamos agir de acordo com o protocolo e as diretrizes do ATLS, guiando nossa avaliação primária pelo ABCDE do trauma. Posteriormente, seguiremos para a avaliação secundária: qualquer paciente que estiver em contato com uma fonte de alta voltagem deve ter monitoramento cardíaco contínuo durante a avaliação. 

Devemos obter um histórico detalhado, tendo em mente os seguintes tópicos: 

  • fonte da lesão elétrica;
  • o tipo de tensão e corrente da fonte de energia;
  • a duração da exposição elétrica;
  • como a lesão ocorreu. 

Também é importante obter alguns antecedentes do paciente, como a história de doença cardíaca e arritmias anteriores.

Muita atenção: é preciso examinar o paciente detalhadamente, da cabeça aos pés, buscando lesões e pontos de contato com muito cuidado

imagem ilustrativa de queimaduras elétricas
É importante estar bem atento e tomar muito cuidado com os pacientes

Normalmente, aparecerão lesões de queimaduras indistinguíveis de queimaduras térmicas tradicionais, afinal, estamos convertendo eletricidade em calor. O que nos ajuda, portanto, é perceber a parte do corpo em contato com a fonte e o solo. Por exemplo: o paciente pode ter queimaduras nas mãos por contato com a fonte elétrica. A eletricidade, então, viaja pelos tecidos do corpo, causando lesões. Finalmente, a eletricidade provoca uma queimadura que sai do corpo, geralmente pelos pés, os quais são o “chão”. 

Os exames que deverão ser solicitados

Essa parte não foge muito do que já viemos conversando: se sabemos que podemos ter lesões em um órgão tão importante como o coração, vamos pedir exames para avaliá-lo. Isso também deve acontecer com outros órgãos internos.

Nesse sentido, será necessário solicitar ECG, enzimas cardíacas, hemograma completo e exame de urina (afinal, podemos ter lesões musculares, causando rabdomiólise e mioglobinúria). Também devemos solicitar uma tomografia computadorizada de crânio se o paciente tiver alterações de nível de consciência ou trauma cranioencefálico associado. Por fim, é importante exigir outros exames em casos de outros traumas associados, como radiografias em casos de fraturas de membros.

O tratamento dos pacientes com queimaduras elétricas

Pessoal, a nossa prioridade número um é tratar o paciente sem colocar os socorristas em risco de lesões, desse modo, começamos com a segurança da cena. O tratamento imediato em si inclui o seguinte:

  • vamos desligar a fonte de energia e remover o paciente do local, assegurando a segurança da cena;
  • retiraremos a roupa do paciente, principalmente qualquer metal que esteja em contato com o corpo (jóias ou equipamentos);
  • em seguida, vamos checar o pulso, e se não estiver presente, partiremos para as condutas de reanimação de acordo com o ACLS;
  • em um paciente consciente, o controle da dor é fundamental, em conjunto com o início de fluidoterapia (de preferência Ringer Lactato).

Podemos iniciar a fluidoterapia, conforme o ATLS direciona, oferecendo um volume de 4 vezes a superfície corporal queimada vezes o peso. Após isso, vamos titulando para produzir um débito urinário adequado (75 a 100 mL / h em adultos ou 1 mg / kg / h em crianças). 

Devemos evitar hipotermia nesses pacientes. Pacientes grávidas, com dor no peito, história de arritmias cardíaca/ doenças cardíacas ou exposição à alta voltagem devem ser colocadas em um monitor cardíaco e observadas por 6 a 12 horas. Pacientes grávidas com mais de 20 semanas de gestação também devem ser colocadas em um monitor fetal, especialmente se expostas à alta voltagem. Pacientes com queimaduras graves devem ser encaminhados ao centro de queimados mais próximo.

Como as lesões internas são mais difíceis de interpretar em pacientes com lesões elétricas do que com queimaduras simples, muitos serviços orientam internação para observação por 12-24h. Estudos mais recentes mostram que, se o paciente estiver estável durante o monitoramento, não demonstrar achados preocupantes nos laboratórios e apresentar ECG normal, ele pode receber alta após o tratamento tópico das queimaduras e dos ferimentos associados, além de haver a necessidade da atualização da vacinação antitetânica.

imagem ilustrativa de queimaduras elétricas
Saiba o que fazer em casos de queimadura elétrica

É isso…

Depois de tudo o que foi dito sobre queimaduras elétricas, deu pra perceber que podemos ter desde um choquezinho até uma parada cardíaca. Cuidar de vítimas de queimaduras é desafiador e temos diversos cursos aqui na Medway que auxiliam e geram confiança no manejo dessa e de outras doenças graves! Só vir com a gente!

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Referências

  1. Gentges J, Schieche C. Electrical injuries in the emergency department: an evidence-based review. Emerg Med Pract. 2018 Nov;20(11):1-20. [PubMed]
  2. Brandão C, Vaz M, Brito IM, Ferreira B, Meireles R, Ramos S, Cabral L. Electrical burns: a retrospective analysis over a 10-year period. Ann Burns Fire Disasters. 2017 Dec 31;30(4):268-271. [PMC free article] [PubMed]
  3. Gentges J, Schieche C, Nusbaum J, Gupta N. Points & Pearls: Electrical injuries in the emergency department: an evidence-based review. Emerg Med Pract. 2018 Nov 01;20(Suppl 11):1-2

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DanielHaber Feijo

Daniel Haber Feijo

Nascido em São Paulo, criado em Belém do Pará. Formado médico pela Universidade do Estado do Pará e Cirurgião Geral pela Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP). Atualmente, profissional da área médica na assistência e no ensino. Segue apaixonado por administração, economia e finanças. A gente só tem aquilo que a gente aceita ter!