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Queimadura de 3° grau: tudo que você precisa saber

Fala, galera! Hoje o texto é sobre queimadura de 3° grau, um tema recorrente no dia a dia e nas provas de residência médica, mas que sempre gera dúvida. Provavelmente, todos que estão lendo já se queimaram em algum momento, em menor ou maior grau, e eventualmente foram orientadas medidas como aplicar pasta de dente, manteiga, gelo ou afins por algum familiar para alívio da dor.

Acreditem, no PS vocês encontrarão um conjunto infinito de possibilidades que as pessoas usam erroneamente quando se queimam. Então quando se trata de queimadura é importante saber o que fazer e o que não fazer em casa, quando internar ou dar alta.

A queimadura é uma lesão tecidual decorrente de trauma térmico, elétrico, químico ou radioativo, em que a profundidade, porcentagem do corpo acometido e as áreas afetadas são os definidores de condutas.

Sempre preciso ir ao hospital quando tenho uma queimadura?

A resposta é não e até o final da leitura será capaz de responder quando deve ir! Primeiramente vamos classificar as queimaduras de acordo com a profundidade. 

Mas o que é uma queimadura de 3° grau?

Na queimadura de terceiro grau ocorre o comprometimento da epiderme, derme e tecido celular subcutâneo, a área pode apresentar-se pálida, textura semelhante ao couro, sensibilidade tátil e a pressão diminuídas. Quando são circunferenciais, deve ser realizada a escarotomia.

Figura 2: Queimadura de terceiro grau.

E, mesmo não sendo o objetivo do artigo, podemos citar as mais profundas, as queimaduras de quarto grau são aquelas que acometem tecidos mais profundos como músculos e ossos, típico das queimaduras elétricas.

Figura 3: Queimadura de quarto grau.

Agora que já sabemos os tipos de queimaduras, vamos pro segundo tópico definidor de conduta que é a área de superfície corporal queimada (SCQ). Como calcular? Nos adultos podemos utilizar a “regra dos nove”, em que a cabeça corresponde a 9%, parte anterior do tórax 18%, parte posterior do tórax 18%, membros superiores 9% cada, membros inferiores 18% cada, genitais 1%. Outra regra existente é a da palma da mão, que geralmente representa 1% da superfície corporal do indivíduo (lembrando que devemos estimar pela palma da mão do indivíduo queimado, não pela nossa). 

Figura 4: Regra dos nove para cálculo de SCQ.

E por fim, mas não menos importante, a localização  das queimaduras fecha nosso tripé definidor de condutas. Mãos, pés, face, períneo, pescoço e olhos, quaisquer que sejam as profundidades e a extensão, necessitam de tratamento hospitalar.

Então beleza. Já sabemos classificar, calcular a SCQ, identificar áreas que por si só indicam necessidade de tratamento hospitalar. Mas como tratar uma queimadura de 3° grau?

Começando pelo simples e eficaz!

“Dr, me queimei, o que fazer de imediato?”. Depende do tipo de queimadura. Caso se trate de queimadura térmica por líquidos, objetos quentes, vapor ou fogo, a área afetada deve ser colocada sob água corrente para esfriar. Nunca, jamais, em hipótese alguma utilizar gelo. Cubra a área queimada com um pano limpo e remova imediatamente pulseiras, relógios, brincos, colares, cintos, sapatos e roupas.

Se for uma queimadura química, como por ácidos, o local deve ser colocado sob água corrente por pelo menos 20 minutos, também devem ser removidos os objetos citados anteriormente e roupas que estejam contaminados pelo produto. No caso dos olhos, enxaguar abundantemente em água corrente até ajuda médica. Não esquecer de retirar as lentes de contato caso esteja utilizando.

Se for queimadura elétrica, não tocar na vítima até que esteja desligado a corrente elétrica e SEMPRE encaminhar para o serviço médico mais próximo.

“Dr, mas o que não posso fazer?”. Não utilizar pasta de dentes, pomadas, clara de ovo, manteiga, óleo de cozinha ou qualquer outro ingrediente sobre a área queimada. Guarde-os para fazer um bolo depois haha! 

O que fazer com a ferida no pronto-socorro?

Primeira medida consiste em  retirada de corpos estranhos, tecidos desvitalizados e limpeza da área com água e clorexidina degermante e realização de curativo oclusivo. E o que fazer com as bolhas? A literatura é conflitante sobre retirar ou não, mas a maioria dos serviços recomendam a remoção, pois elas diminuem o contato com os antimicrobianos tópicos e aumentam a chance de infecção. 

Dentre os antimicrobianos tópicos, o mais utilizado é a sulfadiazina de prata a 1%. Já em relação às queimaduras de segundo grau profundas/terceiro graus será necessário a excisão da área queimada e avaliação pelo especialista.

Outras medidas importantes consistem em reforço da dT, quando o paciente apresentar área queimada superior a 10% (checar situação vacinal) e o controle da dor!

E quando devo internar um paciente/referenciar para uma unidade de tratamento de queimados (UTQ)?

As principais indicações são:

  1. Queimadura de 2º grau > 10%;
  2. Queimaduras envolvendo a face, olhos, ouvidos, mãos, pés, genitálias, períneo ou a pele envolvendo grandes articulações;
  3. Queimaduras de 3º grau;
  4. Queimaduras elétricas graves;
  5. Queimaduras químicas importantes;
  6. Lesão por inalação de via área;
  7. Falta de equipe qualificada, material e equipamento adequados.

Detalhe importante: queimaduras de 1º grau não são consideradas para cálculo da SCQ!

Nesses casos, devemos nos atentar em estabilizar o paciente de acordo com o tipo de queimadura. Um ponto importante é a ressuscitação volêmica, visto que com a epiderme lesada e a resposta inflamatória do trauma, perde-se muito líquido por meio da exsudação. Existe uma fórmula por meio da qual podemos nos guiar em um primeiro momento: 

  • ATLS 10º edição: 2 ml de Ringer Lactato (RL) x peso do paciente x SCQ;

Devemos infundir metade do volume calculado nas primeiras 8 horas a contar do momento do acidente e a outra metade nas 16 horas subsequentes!

 Cuidado com as lesões de via área!

Lembram da tragédia envolvendo a boate Kiss? A queimadura de via área ou o confinamento no ambiente em chamas não pode passar despercebido! A intoxicação por monóxido de carbono (CO) deve ser suspeitada em pacientes que ficam confinados e inalam fumaça. Pode ser encontrada a coloração vermelho cereja da pele e a conduta inicial é administrar imediatamente oxigênio a 100% em alto fluxo. Cuidado com a oximetria, pois não é capaz de diferenciar a COHb da oxiemoglobina. Em casos que envolvem combustão de poliuretano, lã, algodão devemos suspeitar de intoxicação por cianeto e administrar tiossulfato de sódio e hidroxicobalamina.

O primeiro atendimento de um grande queimado deve ser pautado na estabilização (ABCDE na mente!).  É importante atentar para o envolvimento da via aérea, pois isso poderá indicar necessidade de proceder a intubação orotraqueal (IOT). E como desconfiar?

  1. Queimaduras cervicais ou faciais;
  2. Chamuscamento de vibrissas nasais e dos cílios;
  3. Escarro carbonado;
  4. Rouquidão;
  5. Confusão mental ou história de confinamento;

Agora que você já sabe o que fazer e o que não fazer em relação à queimadura de 3° grau, quando referenciar ao CTQ e as nuances do primeiro atendimento no PS, o artigo vai terminando por aqui. Curtiu saber mais sobre o assunto? Se aventure pelo blog que achará outros textos interessantes que vão te deixar mais preparado para as provas e para o dia a dia no pronto socorro!

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MatheusCarvalho Silva

Matheus Carvalho Silva

Matheus Carvalho Silva, nascido em 1993, em Coronel Fabriciano (MG), se formou em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e hoje é residente em Cirurgia Geral na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM).