Assistência ao puerpério: manejo clínico e aleitamento materno

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Conteúdo atualizado em: 01/06/2026

O puerpério é um dos períodos mais desafiadores da prática obstétrica. Marcado por intensas mudanças fisiológicas, hormonais e emocionais, ele exige do médico uma abordagem ativa, estruturada e vigilante. 

Mais do que reconhecer alterações esperadas, é fundamental identificar precocemente complicações potencialmente graves, como infecções, distúrbios psicológicos e dificuldades relacionadas ao aleitamento.

Além disso, trata-se de um tema recorrente nas provas de residência médica, especialmente quando envolve infecção puerperal, amamentação e sinais de alerta.

O que é o puerpério e por que ele importa?

O puerpério corresponde ao período que se inicia após a dequitação placentária e se estende, de forma clássica, até cerca de 6 semanas pós-parto, tempo necessário para que o organismo materno retorne às condições pré-gravídicas .

Didaticamente, pode ser dividido em:

  • Puerpério imediato (até o 10º dia)
  • Puerpério tardio (11º ao 42º dia)
  • Puerpério remoto (após 6 semanas)

Essa divisão não é apenas teórica: ela ajuda a entender quando certas complicações são mais prováveis, especialmente as infecciosas, mais comuns no início desse período.

Figura 1. Involução uterina no pós-parto. Fonte: Shutterstock

Principais mudanças fisiológicas: o que é esperado?

Durante o puerpério, praticamente todos os sistemas sofrem adaptações. O útero, por exemplo, passa por um processo progressivo de involução, reduzindo seu tamanho diariamente até retornar à pelve.

Esse processo está diretamente relacionado à hemostasia pós-parto e à recuperação anatômica. Paralelamente, ocorre a loquiação — eliminação de secreções uterinas — que evolui de aspecto sanguinolento para esbranquiçado ao longo das semanas.

Outras alterações relevantes incluem:

  • Leucocitose fisiológica no pós-parto imediato
  • Estado de hipercoagulabilidade (aumentando risco tromboembólico)
  • Retenção urinária transitória
  • Queda abrupta de estrogênio e progesterona

Do ponto de vista clínico, o mais importante é saber diferenciar o fisiológico do patológico.

Assistência clínica: como avaliar a paciente no período puerperal?

A avaliação no puerpério deve ser sistemática e ativa. Não se trata apenas de observar, é preciso buscar sinais de complicação.

Na prática, isso inclui:

  • Avaliação dos sinais vitais
  • Verificação da involução uterina
  • Inspeção de feridas (cesárea ou períneo)
  • Avaliação das mamas
  • Caracterização dos lóquios
  • Avaliação urinária e intestinal

Além disso, a orientação é parte essencial do cuidado. A paciente deve receber instruções claras sobre higiene, retorno às atividades, sinais de alerta e amamentação.

A consulta puerperal, idealmente realizada entre 7–10 dias e novamente em até 6 semanas, é um momento-chave para consolidar esse cuidado.

Infecções puerperais: 

As infecções são uma das principais causas de morbidade no puerpério, acometendo cerca de 5–7% das mulheres, especialmente após cesárea .

Endometrite: a principal delas

A endometrite é a infecção puerperal mais comum e deve sempre ser lembrada diante de:

  • Febre
  • Dor uterina
  • Lóquios fétidos
  • Subinvolução uterina

O principal fator de risco é a cesariana, seguida por trabalho de parto prolongado e rotura prolongada de membranas.

A colonização bacteriana do trato genital inferior por determinados microrganismos, como estreptococos do grupo B, Chlamydia trachomatis, Mycoplasma hominis Ureaplasma urealyticum e Gardnerella vaginalis tem sido associado a um maior risco de infecção puerperal. 

O tratamento deve ser iniciado precocemente com antibioticoterapia de amplo espectro.

Outras infecções importantes

Além da endometrite, destacam-se:

  • Infecção urinária (associada à sondagem e retenção)
  • Infecção de ferida operatória
  • Mastite
  • Tromboflebite pélvica (diagnóstico de exclusão em febre persistente)

Essas condições exigem alto grau de suspeição clínica, especialmente diante de febre no puerpério.

Aleitamento materno: fisiologia e prática

A amamentação é um dos pilares da assistência no puerpério e envolve um complexo controle hormonal.

  • A prolactina é responsável pela produção de leite
  • A ocitocina promove sua ejeção

A sucção do recém-nascido é o principal estímulo para manutenção da lactação

Pega correta: detalhe que muda tudo

A técnica adequada de amamentação é determinante para o sucesso do aleitamento. Os principais pontos incluem:

  • Boca bem aberta
  • Lábio inferior evertido
  • Queixo encostando na mama
  • Mais aréola visível acima do que abaixo

Erros na pega estão diretamente relacionados a fissuras mamilares e mastite, um clássico de provas.

Principais intercorrências na amamentação

O manejo adequado dessas situações é fundamental tanto para a prática quanto para provas.

Ingurgitamento mamário

Decorre de esvaziamento inadequado das mamas, levando a dor e endurecimento. Entre os fatores de risco temos: técnica inadequada para esvaziamento, mamilos com anomalia anatômica, mamas pendentes, alterações emocionais maternas, dificuldade de pega. 

A realização de  mamadas precoces já na sala de parto, após o nascimento e a não utilização de complementação alimentar para o bebê contribuem para a prevenção. O seu tratamento é realizado com massagens locais suaves, com cuidado especial para não lesionar a pele. 

Fissuras mamilares

Quase sempre relacionadas à pega incorreta. Outras coisas que podem contribuir e devem ser orientadas já na maternidade são a limpeza exagerada das mamas, uso de produtos irritantes e a presença de doenças de pele.

 A presença dessas lesões gera dor e desconforto à lactante, podendo levar a sangramento e servindo de porta de entrada para infecção local. O tratamento das fissuras tem base também nas técnicas de adequação da pega

Mastite

A presença do ingurgitamento mamário associado a pega inadequada e aparecimento de fissuras leva a um processo inflamatório das mamas seguido de colonização por microrganismos. 

Geralmente ocorre em apenas uma mama e acomete principalmente mães de primeira viagem.  

A mastite pode ser infecciosa ou não infecciosa. A não infecciosa está relacionada com o ingurgitamento mamário, com o não esvaziamento suficiente da mama ou má pega do recém-nascido. 

A mastite infecciosa vai desde uma inflamação focal até estados sistêmicos, podendo evoluir para septicemia. 

O quadro clínico clássico possui hiperemia mamária, dor, ingurgitamento e edema local, com possibilidade de aparecimento de linfonodos reacionais em cadeias axilares. O Staphylococcus aureus é o agente mais comum relacionado à mastite infecciosa. 

Com relação ao tratamento, um ponto fundamental a destacar é de que a mastite NÃO contraindica a amamentação – a exceção a essa regra são os casos em que há saída de pus pelo mamilo. 

O tratamento deve ser o mais precoce possível evitando a progressão e quadros mais graves, não podemos esquecer que a mastite pode levar a um quadro de sepse puerperal cuja mortalidade ainda é alta nos dias de hoje.  

Em casos iniciais e focais, o tratamento baseia-se em: Hidratação via oral; Esvaziamento da mama afetada com ordenha manual; Posicionamento correto das mamas; Uso de analgésicos e/ou anti-inflamatórios.

Nos casos infecciosos, há necessidade do uso de antibióticos de amplo espectro por 7 a 10 dias.

Saúde mental no puerpério

O puerpério também é um período de grande vulnerabilidade psicológica. O blues puerperal ou baby blues é o distúrbio psiquiátrico mais comum nesse período. É um estado transitório de reatividade emocional exacerbada experimentada que pode atingir até 80% das mulheres.

Os sintomas costumam surgir a partir do 3 ao 5.º dia pós parto, geralmente com uma piora 1 semana após o parto, se normalizando por volta do décimo quarto dia de puerpério. O tratamento de apoio é indicado e as mulheres com esse quadro devem ser tranquilizadoras sobre a normalidade dessas sensações. 

Já a depressão pós-parto acomete cerca de 15% das puérperas , sendo fundamental seu rastreio com instrumentos como a escala de Edimburgo (EPDS) – foi definido como melhor ponto de corte para rastreamento da depressão pós-parto um escore ≥ 10, que justifica o encaminhamento para a psiquiatria, evitando desfechos desfavoráveis. 

O quadro se refere a um episódio depressivo maior ou de intensidade grave/moderada presente no puerpério, geralmente nas 4 primeiras semanas, com maior vulnerabilidade até 6 meses do parto. 

A depressão pós-parto está associada a uma maior chance de descontinuação da amamentação, conflitos familiares e negligência nos cuidados do bebê, por isso é um diagnóstico de suma importância tanto para mulher quanto para o desenvolvimento e cuidado adequado do bebê. 

A psicose puerperal, embora rara, é uma emergência médica.

Conclusão 

Como vimos, o puerpério é um período de grande importância e requer adequada suspeição das possíveis alterações relacionadas a ele. A identificação de desvios da normalidade, a correta orientação materna e o seguimento adequado da puérpera reduzem o risco de complicações e de desfechos desfavoráveis. 

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Victoria Haffele Bandeira Fickel

Victoria Haffele Bandeira Fickel

Graduação em Medicina pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL/RS) e Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Israelita Albert Einstein