Causas de elevação de Troponina: além do infarto agudo do miocárdio

Conteúdo / Medicina de Emergência / Causas de elevação de Troponina: além do infarto agudo do miocárdio

Elevação de troponina é um achado frequente na prática clínica e, embora as troponinas cardíacas (I e T) sejam biomarcadores padrão-ouro para detecção de injúria miocárdica pela alta sensibilidade e especificidade, nem toda elevação indica Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) tipo 1.

Este artigo detalha a fisiologia desses biomarcadores e explora as diversas condições clínicas — isquêmicas e não isquêmicas — que elevam seus níveis plasmáticos, fornecendo a base técnica necessária para o diagnóstico diferencial no pronto-socorro e na UTI.

Fisiologia e detecção das Troponinas

As Troponinas I e T são proteínas regulatórias que modulam a interação dependente de cálcio entre a actina e a miosina no sarcômero cardíaco.

Mecanismos de liberação

A liberação de troponina pode ocorrer sem necrose celular definitiva. 

Mecanismos incluem: 

  • aumento da permeabilidade de membrana
  • apoptose de cardiomiócitos
  • liberação de produtos de degradação proteolítica
  • formação de vesículas membranosas
  • turnover celular normal. 

Em condições como sepse e sobrecarga de volume, pode haver liberação reversível sem morte celular necrótica. 

Padrões laboratoriais e conceitos:

O diagnóstico de injúria miocárdica utiliza o limite do percentil > 99% do limite superior de referência (LSR) para cada sexo. É crucial avaliar os valores de referência específicos de cada kit laboratorial, dada a variabilidade entre ensaios.

Um detalhe importante: Dizemos que a injúria miocárdica é aguda quando há elevação de  troponina > percentil 99% com padrão de elevação e/ou queda (dinâmico).

Já para caracterizar infarto do miocárdio é preciso que haja injúria miocárdica aguda + evidência clínica de isquemia (como dor torácica).

Infarto do Miocárdio: tipo 1 vs. tipo 2

A distinção entre os tipos de infarto é fundamental para a conduta terapêutica:

  • IAM Tipo 1: Causado por um evento coronariano aterotrombótico primário (ruptura ou erosão de placa), levando à oclusão vascular e redução abrupta do aporte de oxigênio.
  • IAM Tipo 2: Caracterizado por necrose miocárdica secundária a um desbalanço entre a oferta e a demanda de oxigênio, na ausência de trombose coronariana aguda

Causas sistêmicas de elevação por desbalanço oferta demanda:

Sepse e Choque Séptico

A sepse é uma das causas não coronarianas mais frequentes de elevação de troponina.

  • Mecanismo: A ativação da coagulação é o principal mecanismo associado à elevação de troponina na sepse. Outros mecanismos incluem: disfunção diastólica do VE, dilatação do VD, aumento da permeabilidade de membrana (sem necessariamente necrose), e apoptose mediada por citocinas.
  • Prognóstico: Níveis elevados nestes pacientes são marcadores de maior morbimortalidade.

Taquiarritmias

A perfusão coronariana ocorre predominantemente durante a diástole.

  • Em taquicardias sustentadas (ex: Fibrilação Atrial com alta resposta ventricular), o tempo de enchimento diastólico é reduzido, prejudicando o aporte de O2.

Patologias pulmonares

Doenças que causam sobrecarga aguda do ventrículo direito (VD) elevam a troponina:

  • Tromboembolismo pulmonar (TEP): Especialmente em formas graves com disfunção de VD.
  • Hipertensão pulmonar: Pelo mecanismo de sobrecarga pressórica crônica.

Elevação em condições crônicas e neurológicas

Doença Renal Crônica (DRC)

Pacientes com DRC (estágios G4 e G5) frequentemente apresentam troponina basal elevada.

  • Etiologia: Redução do clearance renal associada a microlesões miocárdicas crônicas.
  • Manejo: Deve-se utilizar a curva enzimática (medidas seriadas) para diferenciar um evento agudo de uma elevação crônica. A especificidade para IAM diminui drasticamente em pacientes em diálise. Estabelecer valores basais em pacientes estáveis com DRC pode melhorar o diagnóstico de SCA.

Insuficiência Cardíaca (IC)

Na IC, a elevação decorre do aumento da tensão parietal miocárdica e morte celular programada.

  • Existe forte correlação entre níveis de troponina e BNP, ambos indicando pior prognóstico.

Acidente Vascular Cerebral (AVC)

Eventos neurovasculares (isquêmicos ou hemorrágicos) podem causar elevação enzimática via disautonomia.

  • O excesso de atividade simpática e liberação de catecolaminas gera estresse direto sobre os cardiomiócitos.

Injúria Miocárdica Direta (trauma e inflamação)

Existem situações onde a lesão ao miocárdio é direta, sem necessariamente envolver isquemia por desbalanço de fluxo:

  • Traumáticas: Trauma torácico contuso e desfibrilação.
  • Inflamatórias: Miocardite e pericardite.
  • Tóxicas/Infiltrativas: Quimioterapia (cardiotoxicidade) e amiloidose.

Abordagem prática e interpretação de resultados

A interpretação clínica deve sempre preceder o resultado laboratorial para evitar diagnósticos errôneos.

Critérios de Diferenciação

Contexto ClínicoHipótese PrincipalConduta Sugerida
Idoso, fatores de risco (HAS, DM), dor típicaIAM Tipo 1ECG, dupla antiagregação, estratificação
Jovem, quadro infeccioso, hipotensãoSepseProtocolo de sepse, estabilização hemodinâmica
Hipoxemia súbita, taquicardia, dor pleuríticaTEPAngio-TC de tórax, estratificação de risco
Nota Técnica: Na ausência de clínica de síndrome coronariana aguda (SCA), a elevação isolada de troponina deve ser investigada como injúria miocárdica, buscando as causas secundárias listadas acima.

Referências Bibliográficas

  1. Thygesen K, et al. Fourth Universal Definition of Myocardial Infarction. Journal of the American College of Cardiology (JACC).
  2. Collet JP, et al. 2020 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes in patients presenting without persistent ST-segment elevation.
  3. Conteúdo extraído de: Medway (2026). Causas da Elevação de Troponina.

É médico e quer contribuir para o blog da Medway?

Cadastre-se
A Redação

A Redação