A colecistite aguda é uma das principais emergências da cirurgia geral e uma causa frequente de dor abdominal em pronto-socorro. Entender seu diagnóstico, classificação e manejo é essencial para qualquer estudante ou residente de cirurgia.
A seguir, explicamos tudo o que você precisa saber sobre o tema — de forma prática, embasada e com evidências atualizadas.
A colecistite aguda é a inflamação súbita da vesícula biliar, geralmente causada pela obstrução do ducto cístico ou do infundíbulo por um cálculo biliar. Essa é a forma litiásica, responsável por cerca de 90% dos casos.
Já a forma acalculosa ocorre em pacientes graves, em jejum prolongado, ou em ventilação mecânica — respondendo por 5% a 10% dos casos.
A doença é mais comum em mulheres acima de 40 anos e está associada a fatores de risco como obesidade, dieta rica em gorduras e múltiplas gestações. Em idosos e diabéticos, o quadro pode ser mais insidioso e de diagnóstico tardio.
O bloqueio do ducto cístico ou do infundíbulo impede o esvaziamento da bile, provocando distensão da vesícula, aumento da pressão intraluminal e isquemia da parede.
Com o tempo, há proliferação bacteriana (geralmente E. coli, Klebsiella e Enterococcus) e inflamação intensa, que pode evoluir para necrose, gangrena ou perfuração se não tratada.
Na colecistite acalculosa, o mecanismo é mais isquêmico, relacionado à estase biliar e inflamação secundária à hipoperfusão — o que explica sua maior mortalidade em pacientes críticos.
O quadro típico é de dor contínua no hipocôndrio direito em cólica com mais de 6 horas de duração, que pode irradiar para o dorso ou ombro direito. Outros sintomas incluem:
Nos idosos, a apresentação pode ser atípica — às vezes, apenas febre e leucocitose sem dor evidente.
O diagnóstico combina dados clínicos, laboratoriais e de imagem.
Laboratório:
Imagem:
As Tokyo Guidelines são referência mundial na estratificação da gravidade da colecistite aguda. Essa classificação orienta o tratamento e define o risco cirúrgico de cada paciente.
Conduta: suporte clínico e colecistectomia videolaparoscópica precoce, idealmente nas primeiras 72 horas.
Conduta: antibióticos, estabilização clínica e colecistectomia precoce se possível; caso contrário, drenagem biliar seguida de cirurgia eletiva.
Disfunção de órgão/sistema presente, como:
Conduta: suporte intensivo (UTI), antibioticoterapia ampla e drenagem biliar percutânea. A colecistectomia só deve ser realizada após estabilização do paciente.
O manejo da colecistite aguda é dividido em suporte clínico e tratamento definitivo.
Manejo inicial:
Tratamento definitivo:
A colecistectomia videolaparoscópica precoce é o padrão-ouro e deve ser realizada nas primeiras 72 horas sempre que possível.
Nos casos graves (Grau III), indica-se colecistostomia percutânea como ponte até a cirurgia definitiva.
Sem tratamento adequado, a colecistite pode evoluir para:
Com diagnóstico precoce e cirurgia dentro do tempo ideal, o prognóstico é excelente.
A mortalidade é inferior a 1% nos casos leves, mas pode ultrapassar 15% nos casos graves ou acalculosos em pacientes críticos.
A colecistite aguda é uma doença comum, potencialmente grave, e cuja abordagem precoce faz toda a diferença no desfecho do paciente.
Para o cirurgião geral, dominar o diagnóstico clínico e os critérios de gravidade de Tokyo é fundamental para definir a melhor conduta e evitar complicações.
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Professora da Medway. Formada pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, com Residência em Cirurgia Geral pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Residência em Urologia pela mesma instituição e Residência em Reprodução Humana pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).