Como é a residência em Clínica Médica na ISCMSP

Quer fazer residência em Clínica Médica, mas ainda tem dúvidas sobre qual instituição escolher? Que tal conhecer mais sobre a residência em Clínica Médica na ISCMSP?

Essa pode ser a residência dos sonhos – talvez você até já saiba disso, mas sempre fica aquela dúvida, não né?

A residência em Clínica Médica na ISCMSP (Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo) é um exemplo de tradição e credibilidade. Fundada  há 460 anos, por um grupo de pessoas notáveis na sociedade paulistana, a  Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo é uma instituição privada e laica –  e leva esse nome por ter  pertencido à ordem das Santas Casas de Misericórdia criada em Portugal em 1498, por aristocratas católicos que visavam a  caridade e o atendimento à saúde dos mais necessitados.

Como é a residência em Clínica Médica na ISCMSP

Hoje, a Santa Casa é considerada o maior hospital filantrópico da América Latina e atende aproximadamente 8 mil pessoas nas cinco unidades que administra: Hospital Central, Hospital Santa Isabel, Centro de Saúde Escola Barra Funda, Hospital Dom Pedro II e Hospital São Luiz Gonzaga, nos quais os residentes em Clínica Médica têm vasta vivência prática nos mais variados estágios e podem realizar procedimentos de baixa e de alta complexidade.

Para tirar suas dúvidas sobre a residência em Clínica Médica na ISCMSP, conversamos com a Andréia e com o Bruno, ambos residentes do segundo ano do programa.

Joana: Vou começar com uma pergunta que a gente sabe que é bastante pessoal, mas é inevitável. Qual é o melhor estágio da residência em Clínica Médica na ISCMSP? Por quê?

Andréia: O PS, pois é um estágio com preceptores presentes e com muita oportunidade de aprendizado (principalmente prático, de manejo de paciente e procedimentos). A Hematologia – rodízio do R1, também é muito bom. Ambulatórios com muitos pacientes, preceptores presentes e que ensinam “o que clínico deve saber”.

Bruno: O melhor estágio da residência é o do Pronto-Socorro. É o melhor e o “pior” ao mesmo tempo. É o “pior” porque tem a carga horária mais pesada, entramos às 7h e teoricamente ficamos no PS até as 19h – bem teoricamente – pois só vamos embora quando todas as pendências do dia estão resolvidas, não é incomum sairmos depois das 21h, às vezes, às 22h, e para estar novamente lá no dia seguinte, 5 dias na semana. 

É onde temos a maior sobrecarga de horário e sobrecarga de trabalho e emocional, com muita demanda, muitos pacientes para atender e avaliar, muitas ‘funças’ (aquele trabalho chato que sempre sobra para o residente). Mas é o melhor estágio da residência, pois é onde mais aprendemos, onde perdemos o medo de pacientes críticos, onde realizamos incontáveis procedimentos (acesso central, cateter de hemodiálise – Shilley -, intubação, toracocentese, paracentese, etc) – são tantos que ao final do R1 já tinha contado mais de 50 centrais / Shilley e 20 intubações. 

É o estágio onde aprendemos a manejar drogas vasoativas e tratar verdadeiras emergências clínicas, como IAM, AVEi, AVEh, crises hipertensivas, e os mais diversos tipos de choque. É também o estágio onde temos maior suporte de preceptoria. São 3 meses de estágio no pronto-socorro durante o R1, e no restante do ano temos aproximadamente de 35 a 42 plantões noturnos no pronto-socorro. Isso faz da Santa Casa uma residência bastante focada em emergência.

Joana: Há algum médico-assistente que você considere sensacional ou exemplo para sua formação? Por quê? 

Andréia: Não vou citar nomes, mas alguns chefes são bem mais presentes que outros e se destacam pela parceria com os residentes.

Bruno: Tem sim. Temos um dos chefes da enfermaria que é exemplo de profissional e de pessoa e temos vários chefes no pronto socorro que são pessoas jovens, muitos deles ex-residentes da Santa Casa que são muito companheiros e nos dão o suporte e apoio que precisamos.

Joana: Conta um pouco pra mim onde vocês rodam ao longo de toda a residência em Clínica Médica na Santa Casa.

Andréia: Bom, vamos lá! No R1, são 3 meses (não consecutivos) de PS, das 7h às 19h, em teoria… pois na prática a gente só ia embora quando o último paciente que chegou até 18h59 fosse atendido ou quando as funções do dia e procedimentos acabassem. No R1 ainda temos 1 mês de geriatria, 1 mês de hemato, 3 meses de enfermaria, 1 mês de UTI, 1 mês de UBS, 1 mês de infecto e 1 mês de férias. Média de 6 a 8 plantões noturnos junto de cada rodízio (exceto nos meses de PS, UTI e infecto).

No R2, são 2 meses de enfermaria, 1 mês de nefro, 1 mês de endócrino, 1 mês de UTI, 1 mês de pneumo, 1 mês de cardio, 1 mês de gastro, 2 meses de eletivo, 1 mês de PS e 1 mês de férias. Média de 4 a 5 plantões noturnos junto de cada rodízio (exceto nos meses de PS, UTI e nefro).

Joana: Existem estágios eletivos na sua residência? É possível (e comum) fazer um estágio fora do país?

Andréia: 2 meses de eletivo. Acho que não é possível fazer estágio fora do país devido aos plantões. Continuamos a dar plantão noturno durante o eletivo. Algumas pessoas conseguiram fazer em outra instituição.

Bruno: Existe sim, porém o eletivo precisa ser feito dentro de São Paulo, pois durante o eletivo continuamos dando plantões noturnos no PS da Santa Casa. Na prática, a maioria dos residentes faz o estágio eletivo em alguma especialidade dentro da própria instituição.

Joana: Sua residência, de uma forma geral, respeita as 60 horas semanais? E qual é a carga máxima de plantão que você dá? Conta pra gente se tem algum período de descanso pré ou pós-plantão.

Andréia: Sim, respeita a carga horária. Mas já fiquei 34h. Foram 12h de trabalho diurno, 12h de plantão noturno e 10h passando visita na enfermaria. Estamos com muitos pacientes complexos. Na Santa é comum termos paciente em intubado com DVA na enfermaria devido à indisponibilidade de vagas de UTI.

Como disse antes, a média de plantão mensal no R1 é entre 6 e 8 e no R2, entre 4 e 5. Em geral, temos pós plantão de 24h. Só em alguns estágios não existe pós plantão (no R2 apenas).

Bruno: No geral, a residência respeita a carga horária. O único estágio que passa de 60h semanais é o Pronto Socorro, uma vez que dificilmente conseguimos sair do hospital às 19h.

Os plantões de PS têm pós-plantão todo o dia seguinte, são poucas as exceções. Então você faz o plantão noturno – que é pesado e você praticamente não descansa – passa o plantão e vai pra casa descansar. Os plantões de Nefrologia não têm pós-plantão, você trabalha pelo menos meio período no dia seguinte. Porém, o plantão é tranquilo caso você tenha sorte e, às vezes, dá pra descansar bem. O plantão de Infectologia no Emílio Ribas tem pós-plantão a partir das 12h, então você vai do plantão para a enfermaria e, depois de evoluir e discutir os pacientes, vai pra casa descansar.

O número de plantões varia de acordo com o número de residentes: de forma geral, são entre 35 e 42 plantões noturnos nos PS durante o R1, mais os 3 meses de PS, em que fazemos 12h diurnas, mas não temos plantões noturno). O estágio de UTI são de 20 a 22 plantões diurnos/noturnos no mês – na UTI você pode juntar os plantões e fazer de 24h a 36h e tirar vários dias de folga. Tem também os 5 plantões no Emílio Ribas durante o mês de Infectologia. Já no R2 são aproximadamente de 35 a 40 plantões no PS, 5 plantões de nefrologia e de 20 a 22 plantões em UTI. 

Joana: De 0 (nada) a 10 (demais), o quanto sua residência foca em parte teórica?

Andréia: Nota 6. 

Bruno: Nota 5.

Joana: Quais as principais atividades teóricas que vocês têm?

Andréia: Aulas teóricas às quartas-feiras, no período da manhã para quase todos os residentes de área clínica – aulas suspensas desde março devido à pandemia. As outras atividades dependem do rodízio. Mas a Santa não tem um foco teórico forte, a gente aprende muito na prática.

Joana: Aproveitando o embalo: de 0 (nada) a 10 (demais), o quanto sua residência foca em parte acadêmica?

Andréia: Nota 5.

Bruno: Nota 4.

Joana: Quais os pontos fortes da residência em Clínica Médica na Santa Casa? Dá uma aprofundada pra gente.

Andréia: Prática. Muito procedimento (R1 tem prioridade em todos os procedimentos, exceto passagem de marca-passo, que é do R2) e contato com pacientes muito graves com aprendizado do manejo desses casos. Não tem muita ciência, mas o paciente é bem atendido e as condutas são embasadas. A gente aprende a fazer o que é necessário para cuidar daquelas pessoas da melhor forma possível considerando o contexto do hospital.

Bruno: O ponto forte da residência é “pegar muita mão” de manejo de pacientes graves, de realizar procedimentos, e ela prepara para trabalhar em qualquer serviço. Além disso, nós residentes da Santa Casa somos bem vistos em outros serviços em São Paulo, uma vez que somos acostumados a trabalhar com pacientes muito graves e complexos e com demanda muito alta, então temos muita oferta de emprego em UTIs e em outros serviços depois da residência ou até mesmo durante o R2.

A Santa Casa valoriza muito os seus alunos e residentes, então é muito comum que os residentes formados sejam contratados como chefes de plantão no pronto socorro, é uma ótima oportunidade para quem gosta de ensinar e pretende ter contato com residentes depois de terminar a especialidade.

Joana: E tem algum ponto que você acha que poderia melhorar?

Andréia: O rodízio da UTI tem que melhorar para otimizar o tempo do residente. Ficamos muito tempo fazendo transporte de paciente para exames e acabamos perdendo oportunidades de aprendizado real.

Bruno: Tem sim. Poderia melhorar se tornando um ambiente mais acadêmico. Poderia melhorar também a infraestrutura, condições de trabalho etc… Acredito que seja um problema comum do serviço público, mas temos um ambiente de trabalho um tanto conturbado, conforto médico não é bom, faltam suporte para necessidades básicas dos residentes como acesso a água de qualidade ou banheiro com higiene aceitável, principalmente no ambiente do pronto socorro. Mas o hospital tem melhorado muito neste sentido, as enfermarias foram todas reformadas e estão ótimas.

Precisa melhorar também no recurso laboratorial, pois alguns exames são difíceis de conseguir no pronto-socorro e, às vezes, até mesmo para pacientes internados, como é o caso dos anticorpos, e no PS às vezes é difícil conseguir algo como um TSH e T4 livre. Estes exames são acessíveis muitas vezes só para pacientes internados e, no caso dos anticorpos, apenas para pacientes em seguimento com a reumatologia.

Outro ponto seria a necessidade de renovação dos materiais do PS, como os monitores cardíacos – alguns não pegam oximetria, outros não medem PA etc… Então a residência em Clínica Médica na ISCMSP enfrenta muitos problemas relacionados à infraestrutura e condições de trabalho. Mas o hospital tem apresentado melhora ano após ano.

Joana: A sua residência disponibiliza quais “comodidades” para os residentes?

Andréia: Tem bandejão gratuito (arroz, feijão, proteína animal e salada). Não tem estacionamento nem seleção para moradia.

Bruno: Não temos opção de moradia. Temos alimentação no refeitório, que é um tanto precária… Temos almoço, jantar e ceia. Inclusive, para tirar dúvidas, você pode dar uma olhada no Instagram que nossa turma criou (@bandejao_santacasa) onde lá, todos os dias é postado foto do prato servido e, assim, dá para se ter uma noção.

Joana: Bruno, você não é de São Paulo, né? Pretende voltar para sua cidade de origem depois da residência? Conhece alguém que voltou ou pretende voltar? Acha que dá para se inserir bem?

Bruno: Eu quero voltar para a minha cidade sim, e acho que vai ser possível me inserir no mercado sem dificuldades. A Santa Casa é uma instituição reconhecida, o que permite que você trabalhe em qualquer instituição depois de formado. Não é difícil entrar no mercado de trabalho em outro lugar depois, uma vez que você terá uma experiência singular na área de atuação de clínica médica e, com certeza, vai se destacar em outras regiões. Este é um dos motivos por que temos gente do país inteiro fazendo residência ali.

Joana: Tem mais alguma coisa que você queira falar sobre a sua residência que a gente não perguntou?

Andréia: A Santa Casa tem um programa de residência focado no atendimento de emergência. A parte ambulatorial não é tão forte, mas o PS é muito bom, te prepara para cuidar dos piores momentos que seu paciente pode ter… PCR, IRpA, RNC, paliação… tudo isso e mais tantas outras experiências surreais que vivemos. É sofrido e intenso, mas vale a pena.

Bruno: Se pudesse voltar atrás, você escolheria fazer residência de clínica na Santa Casa novamente? Com certeza sim! Eu não tenho dúvida de que, apesar das adversidades, da pressão e da carga de trabalho, a minha preparação realmente é diferenciada por estar em uma instituição como a ISCMSP.

Gostou de saber mais sobre a residência em Clínica Médica da ISCMSP?

E aí? Gostou? Está pronto para muitas horas de estágios e uma rotina para lá de exigente? Uma coisa temos certeza depois desse bate-papo: vai valer a pena todo esforço e dedicação nessa caminhada!

E, para conseguir a vaga na residência em Clínica Médica na ISCMSP, é essencial começar a se preparar para essa prova. No nosso Guia Estatístico contamos tudo sobre os seis focos que mais caíram em cada grande área na prova de residência da Santa Casa nos últimos cinco anos!

Aqui no blog, nós também já contamos tudo sobre como é a prova prática da ISCMSP – inclusive, é bom se preparar, pois a prova prática da Santa Casa tem fama de ser diferente de outras bancas que focam no atendimento completo com a realização de anamnese e exame físico completos.

Nossa sugestão é o nosso Minicurso de Prova Prática, que é gratuito e tá cheio de dicas para você brilhar na segunda fase – seja da Santa Casa ou de qualquer instituição!

Receba conteúdos exclusivos!

Telegram
JoanaRezende

Joana Rezende

Carioca da gema, nasceu em 93 e formou-se Pediatra pela UFRJ em 2019. No mesmo ano, prestou novo concurso de Residência Médica e foi aprovada em Neurologia no HCFMUSP, porém, não ingressou. Acredita firmemente que a vida não tem só um caminho certo e, por isso, desde então trabalha com suas duas grandes paixões: o ensino e a medicina.