Como é a residência em Medicina Física e Reabilitação na USP

Quem está se preparando para as provas de residência sabe que precisa se informar bastante para fazer a escolha certa: aquela que satisfaça seus sonhos e desejos. E neste artigo, você vai conhecer um pouco mais sobre a residência em Medicina Física e Reabilitação na USP (Universidade de São Paulo). 

A residência em Medicina Física e Reabilitação na FMUSP tem duração de três anos e ingresso direto. O médico residente vai ter acesso a estudos teóricos e práticos com uma equipe multiprofissional bastante experiente em programas de reabilitação em diversas áreas, nos ambulatórios e enfermarias do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFM-USP).

Para que você saiba um pouco mais do dia a dia dessa residência médica, nós conversamos com a Valeska, que está no segundo ano, e com a Sílvia, que está no terceiro ano da residência em Medicina Física e Reabilitação na USP.

Alexandre: Vou começar com uma pergunta que a gente sabe que é bastante pessoal, mas todo mundo pergunta. Qual é o melhor estágio da sua residência? Por quê?

Logo do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do HC FMUSP - Rede Lucy Montoro
Logo do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do HC FMUSP – Rede Lucy Montoro

Valeska: Na enfermaria Vila Mariana – uma enfermaria de reabilitação na qual os pacientes com amputação, lesão medular, lesão encefálica e miopatias por internação prolongada ficam internados para um intensivão de terapias com equipe multidisciplinar para melhora de funcionalidade e qualidade de vida. 

Nesse estágio de 3 meses, percebemos o quanto podemos fazer pela saúde do paciente, o quanto podemos melhorar a independência dele para viver o que quiser, mesmo com suas deficiências. É maravilhoso!

Sílvia: Bom, é uma pergunta bem pessoal mesmo. Eu gostei de todos os estágios, cada um tem sua particularidade, dando contribuições diferentes. Como sempre gostei de enfermaria, os melhores estágios, para mim, foram os da internação (tanto na Vila Mariana quanto no Morumbi).

Nossa residência ocorre não somente no HC, como também em todos os Institutos de Reabilitação da Rede Lucy Montoro da cidade de São Paulo.

Cada instituto desses tem um enfoque diferente. Por exemplo: a unidade da Lapa atende mais pacientes com hemofilia e síndrome de Down, além de oferecer inúmeras oficinas para os pacientes, já reabilitados, se reinserirem no mercado de trabalho: são oficinas de pintura, dança, música, informática, línguas, marchetaria, entre outras. Nas unidades Clínicas e Umarizal, há muitos pacientes com dor crônica, bursite, tendinite, lombalgia e até doenças neurológicas como esclerose múltipla.

Finalmente, as enfermarias estão localizadas nas Unidades da Vila Mariana e do Morumbi. Na primeira enfermaria, na qual passamos no R2, encontram-se internados pacientes amputados e com lesão encefálica leve. Na última, passamos durante o R3 e vemos pacientes com lesão medular e lesão encefálica grave. 

Antes da COVID-19, víamos pacientes mais crônicos, pois existia uma fila de espera enorme. Atualmente, por causa da pandemia, o tempo de internação reduziu e estamos recebendo pacientes numa fase mais subaguda. 

O que gostei, nesses estágios, é que podemos acompanhar a evolução do paciente de perto: desde a melhora com medicações e procedimentos até nas terapias com a equipe multidisciplinar (Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, entre outras).

Também é um momento em que temos tempo para estudar e nossos chefes estão disponíveis para discutir e tirar dúvidas. Além disso, aprendemos na prática a prescrever órteses, próteses e meios auxiliares de marcha, como cadeira de rodas. 

Observamos ainda, um excelente trabalho em grupo –  semanalmente ocorrem reuniões de equipe para definição de metas e objetivos para cada paciente, de acordo com sua evolução. Outro estágio que gostei bastante é semelhante a esses: o da enfermaria do IOT (Instituto de Ortopedia e Traumatologia) do HC. 

A diferença é que lá não é um hospital de reabilitação. Então, só recebíamos pacientes de pós-operatório da Ortopedia  – em sua maioria lesão medular nas fases aguda e subaguda – para dar as orientações iniciais, controlar a dor com medicações e procedimentos. Lá, também realizamos interconsultas, o que é uma grande experiência. 

Temos outro estágio específico de Interconsultas, no qual somos chamados para avaliar pacientes de todos os institutos do HC. 

Passamos também por um ambulatório de toxina botulínica, onde temos a oportunidade de trabalhar com um grupo maravilhoso, vendo e praticando muita anatomia topográfica e com USG; além dos ambulatórios de dor, com uma equipe multidisciplinar. 

Todos esses foram estágios de grande aprendizado e aproveitamento.

Alexandre: Há algum médico-assistente que você considere sensacional ou exemplo para sua formação? Por quê? 

Valeska: Dra Linamara Batistella que é professora titular da Fisiatria, idealizadora da rede de reabilitação Lucy Montoro, que nos ensina como devemos pensar no cuidado integral do paciente portador de deficiência. 

Ela também está inovando na reabilitação dos pacientes pós-Covid19 e mostrando a importância dessa visão num cenário de pandemia.

Sílvia: A Professora Linamara certamente é nosso maior exemplo de liderança, direção e inovação na fisiatria. 

Durante nossa rotina, os assistentes dos estágios de internação, interconsulta e ambulatórios me ensinaram outras formas de avaliar o paciente, com uma visão muito mais ampla e humanizada  – acolhiam os pacientes com empatia, orientando-os de maneira individualizada –  além de mostrarem como coordenar equipes de reabilitação.

Alexandre: Conta um pouco pra mim onde vocês rodam ao longo de toda a residência em Medicina Física e Reabilitação na USP.

Sílvia: No primeiro ano de residência, rodamos uma parte com a Clínica Médica: um mês no pronto-socorro, atendendo na porta, um mês na UTI, dois meses na enfermaria do pronto-socorro (cuidando de pacientes crônicos, com grandes discussões e aprendizado), dois meses no AGD (ambulatório geral didático que é um ambulatório de clínica médica); uma parte na Pediatria: dois meses na enfermaria de Pediatria (com uma equipe maravilhosa) e metade de um mês em ambulatório de Pediatria e Neonatologia (cuidando de pacientes com doenças crônicas); um mês no ambulatório de Neurologia e um mês no ambulatório de Reumatologia.  Além de um mês na Fisiatria. Tudo no complexo do HC.

Imagem aérea do Hospital das Clínicas
Alguns dos estágios da residência em Medicina Física e Reabilitação na USP acontece nos diversos institutos do HC

No segundo ano, começamos de fato na Fisiatria. Rodamos em todos os Institutos da Rede Lucy Montoro e no IOT [Instituto de Ortopedia e Traumatologia]. No IOT, ficamos 3 meses na enfermaria, ambulatórios de dor crônica, síndrome miofascial, lesão medular, osteoporose, joelho e amputados. Ficamos 3 meses na enfermaria da Vila Mariana (como já falei antes, com pacientes com lesão encefálica e amputados). E nos outros meses passamos em diferentes ambulatórios: lesão encefálica, lesão medular, podobarometria, análise de marcha, bexiga neurogênica, dor, infantil, triagem, isocinético, hemofilia, síndrome de Down.

No terceiro ano, ficamos um mês no ICESP (no ambulatório e interconsulta de pacientes oncológicos com demandas de reabilitação), um mês no Sírio Libanês, dois meses na Interconsulta (HC), 3 meses na enfermaria do Lucy do Morumbi (cuidando de pacientes internados com lesão medular e lesão encefálica), 6 meses no ambulatório de toxina botulínica, e outros estágios em diversos ambulatórios: lesão encefálica, lesão medular, procedimentos (como infiltração, ondas de choque), urodinâmica, Infantil, Neuromuscular, ENMG, amputados, dor.

Alexandre: Existem estágios eletivos na sua residência? É possível (e comum) fazer um estágio fora do país?

Sílvia: Sim, no R3 temos um mês de estágio eletivo e é possível e comum realizá-lo em países como EUA (Spaulding Rehabilitation Hospital Boston, Mayo Clinic, Mount Sinai), Portugal (Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão), Canadá (Toronto Rehabilitation Institute), Itália (Università degli Studi di Roma “Tor Vergata”) e Japão (Fujita Health University), entre outros.

Alexandre: A residência em Medicina Física e Reabilitação na USP, de uma forma geral, respeita as 60 horas semanais? Qual é a carga máxima de plantão? Aproveita e conta se existe algum período de descanso pré ou pós-plantão.

Valeska: Sim, respeitam, mas a carga máxima de plantão depende. No R1, dividimos a escala com os colegas da clínica, fazemos plantão em UTI, Pronto-Socorro e Enfermaria de retaguarda do ps. No R2, fazemos plantões nos estágios do Instituto de Ortopedia e nas enfermarias. Mas, sempre com assistente e respeitando as 60h semanais.

Sílvia: Respeitam. A carga máxima de plantão é de 24 horas – que pode ser transformada em 26 horas na prática, mas existe pós-plantão. Isso ocorreu no estágio da UTI, pois quando estávamos de plantão entrávamos às 8h00 e saíamos após a visita do dia seguinte, que poderia terminar 10h30. Após a visita, tínhamos o resto do dia para descansar e só voltaríamos no dia seguinte.

Alexandre: De 0 (nada) a 10 (demais), o quanto sua residência foca em parte teórica? Pode contar detalhar pra gente quais são as principais atividades teóricas que vocês têm?

Valeska: Nota 7. Toda terça, temos discussão e aulas teóricas pela tarde e temos um horário livre para pesquisa e cursos relacionados à pesquisa.

Sílvia: Dou nota 7. No primeiro ano, varia muito de acordo com os estágios de Clínica Médica, Pediatria, Neurologia e Reumatologia. Porém há um pouco de tudo: discussão de casos clínicos e aulas teóricas e práticas. Na Fisiatria, temos aulas teóricas semanais e algumas aulas práticas. E em cada estágio ainda podemos realizar seminários, discutir com os chefes, observar e ter aulas com os terapeutas, entre outras possibilidades práticas.

Alexandre: Aproveitando, de 0 (nada) a 10 (demais), o quanto a residência em Medicina Física e Reabilitação na USP foca na parte acadêmica?

Valeska: Nota 7

Sílvia: Nota 8.

Alexandre: E quais os pontos fortes da residência em Medicina Física e Reabilitação na USP?

Valeska: O serviço é referência em reabilitação e permite contato com pacientes complexos e reabilitação robótica, além de oferecer muita oportunidade de pesquisa

Sílvia: Acredito que o ponto forte da nossa residência é ter a chance de praticar muitos atendimentos de pacientes com grandes incapacidades na enfermaria e no ambulatório de pacientes com lesão medular, amputados e lesão encefálica nas fases subaguda e crônica) e alguns procedimentos como agulhamento seco e toxina botulínica; além de ter uma noção geral de tudo o que a fisiatria pode oferecer, tais como exames diferenciados como podobarometria, análise de marcha, urodinâmica; órteses e próteses; tratamentos de primeiro mundo como robótica, realidade virtual, isocinético, ondas de choque, entre outros.

Alexandre: E tem algum ponto que você acha que poderia melhorar?

Valeska: Acredito que as aulas teóricas poderiam melhorar. 

Sílvia: Sempre é possível melhorar. No terceiro ano, tínhamos muitos ambulatórios semelhantes aos do segundo ano, o que por um lado permitia aprofundar o assunto, e exercer o papel didático de discutidor com nossos R2s, mas por outro lado, víamos muitas coisas repetidas e deixávamos de ver outros aspectos. 

A COVID-19 nos trouxe um momento de reflexão e de novos pacientes: os pacientes pós-COVID para reabilitação.

Começamos então a fortalecer a comunicação com outras especialidades médicas, visto que a Fisiatria é uma especialidade muito ampla, que lida com vertentes da Neurologia, Neurocirurgia, Reumatologia, Ortopedia, Vascular, Geriatria, Medicina do Esporte, Cardiologia, Oncologia, entre outras, e tem muito a oferecer a elas, mas para isso é necessário entender suas demandas. 

Acredito que a interrelação entre as especialidades só vai aumentar e vejo isso como muito positivo na residência.

Outra especialidade que considero importante para nossa formação é a Radiologia, pois muitas vezes recebemos pacientes com exames de imagem sem laudo e precisamos tomar uma conduta no momento da consulta. 

Um estágio em ressonância de coluna, USG osteoneuromuscular, por exemplo, nos auxiliaria em uma conduta mais rápida no consultório, por exemplo.

Alexandre: A residência disponibiliza quais “comodidades” para os residentes?

Sílvia: Temos direito a almoço e jantar em um restaurante do HC e almoço em todos os institutos do Lucy Montoro. 

Há um processo de seleção para uso da moradia, que fica perto do HC. Dentre os critérios para aceitação estão carga horária da residência, distância da cidade de origem e condição social. 

Há a possibilidade de adquirir o bilhete de estudante para metrô, se você não morar perto do HC.

Alexandre: E me diz: dá pra conciliar a residência com plantões externos? A maioria faz isso?

Valeska: Sim! É possível.

Alexandre: Vocês são do estado de São Paulo. Mas conhecem alguém que voltou ou pretende voltar para a cidade de origem após a residência? Acham que é possível se inserir bem no mercado?

Sílvia: Sim. Conheço uma ex-residente do Equador que voltou para seu país de origem, e conheço ex-residentes de outros estados que foram para cidades do interior de São Paulo, por exemplo. A Fisiatria é uma especialidade muito ampla, com poucos especialistas. 

Portanto, acredito que há muita demanda reprimida ainda e espaço no mercado, tanto em São Paulo quanto em outros estados.

Alexandre: Tem mais alguma coisa que você queira falar sobre a residência em Medicina Física e Reabilitação na USP que a gente não perguntou?

Valeska: Sim. Venham conhecer o mundo da reabilitação para, pelo menos, abrir a cabeça para a qualidade de vida do paciente no ambulatório e pós-alta em internações prolongadas. Pensem no que é importante o paciente conseguir fazer na vida dele e se seria interessante encaminhá-lo para reabilitação para que ele recupere sua função.

Sílvia: Muitos são os quesitos a serem avaliados na escolha da especialidade médica. Em resumo, a Fisiatria é uma especialidade que segue uma vertente clínica, que permite a realização de procedimentos (como infiltrações, agulhamento seco, toxina botulínica), exige um perfil que saiba escutar, ter empatia e trabalhar em grupo. É uma especialidade que não tem plantões, mas que pode exigir uma carga horária grande de ambulatórios, enfermarias e interconsultas.

Curtiu saber mais sobre essa residência médica?

Gostou do que leu? Está preparado para prestar a prova de residência médica da USP e realizar seu sonho? Contamos aqui no blog tudo sobre a prova de residência médica da USP, e ainda separamos 20 questões de Preventiva que caíram na prova teórica de residência da USP nos últimos anos.

Quer se preparar mais ainda para brilhar na prova de residência médica? Então dá uma olhada nesse Guia Estatístico da prova de residência médica da USP que preparamos, mostrando quais são os principais temas que caem na prova!

O canal da Medway no YouTube também está cheio de aulas sobre temas importantes que caem nas principais provas de residência médica de São Paulo. Um exemplo é esse aqui, em que o Micael fala sobre Arritmias, um tema que sempre cai em Clínica Médica na USP:

E se você ainda não tem certeza de que a USP é melhor instituição para fazer a residência médica, fique atento aqui no nosso blog, pois vamos postar vários conteúdos específicos sobre como é fazer residência em cada uma das principais instituições de São Paulo. Quer saber de alguma em específico? Deixa um comentário aqui embaixo!

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AlexandreRemor

Alexandre Remor

Nascido em 1991, em Florianópolis, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da FMUSP (HC-FMUSP) e Residência em Administração em Saúde no Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Fanático por novos aprendizados, empreendedorismo e administração.