Desenvolver a comunicação no internato não é uma tarefa fácil. Em geral, essa é uma das fases mais desafiadoras e transformadoras da formação médica. Afinal, é o momento em que o estudante passa a atuar de forma mais direta no cuidado dos pacientes, integrando os conhecimentos teóricos adquiridos ao longo da graduação à prática clínica.
Nesse cenário, se comunicar bem se torna uma habilidade essencial, tanto para garantir a segurança do paciente quanto para promover relações profissionais saudáveis e eficientes. Mais do que saber o que dizer, comunicar-se bem no ambiente hospitalar exige saber ouvir, adaptar a linguagem ao contexto e manter uma postura ética e empática.
Mas nem todo mundo tem tanta facilidade para isso logo de cara. E tudo bem! Estamos aqui para ajudar. Hoje você vai entender por que a comunicação é indispensável durante o internato, os desafios que ela impõe e como desenvolver essa habilidade fundamental para a vida médica.
A comunicação é uma das competências centrais da prática médica. Durante o internato, ela se torna ainda mais importante porque o estudante precisa interagir com múltiplos públicos: pacientes, familiares, preceptores, enfermeiros e outros membros da equipe.
Essas interações não apenas facilitam o cuidado, como também moldam a imagem profissional do futuro médico. Veja um pouco mais sobre a importância da comunicação no internato a seguir!
Durante o internato, o estudante assume um papel mais ativo nas interações com os pacientes. Isso significa que será responsável por explicar procedimentos, colher histórias clínicas, tranquilizar famílias e, por vezes, dar más notícias, sempre sob supervisão. Ter empatia, escuta ativa e clareza ao se expressar são atitudes que fazem toda a diferença na construção de uma relação terapêutica de confiança.
Além do contato com pacientes, o interno precisa aprender a se comunicar com diferentes profissionais da saúde. Enfermeiros, fisioterapeutas, técnicos, assistentes sociais e psicólogos são fundamentais para o cuidado integral, e saber se comunicar com eles de forma clara, respeitosa e objetiva garante um trabalho em equipe mais eficiente e menos propenso a erros.
Saber quando e como pedir ajuda, relatar dúvidas, apresentar casos clínicos e receber críticas construtivas são partes fundamentais da formação. Uma boa comunicação com os preceptores permite que o interno aproveite melhor as oportunidades de aprendizado e receba orientações valiosas para o seu crescimento profissional.
Apesar de essencial, desenvolver uma boa comunicação no internato não é tarefa simples. Existem obstáculos estruturais, emocionais e pedagógicos que dificultam esse processo. Conhecer esses desafios é o primeiro passo para superá-los. Vamos lá!
A rotina do internato é marcada por uma intensa carga de trabalho: visitas médicas, plantões, atendimento ambulatorial, discussão de casos, além de avaliações e provas.
Com tantas atividades, é comum que os internos se sintam pressionados a cumprir tarefas rapidamente, o que pode levar a uma comunicação apressada e ineficaz. Nessas circunstâncias, há menos tempo para escutar os pacientes com atenção ou conversar com colegas sobre condutas.
Apesar de sua importância, a comunicação ainda é pouco valorizada formalmente no currículo de muitas faculdades de Medicina. Os estudantes aprendem na prática, observando seus preceptores e colegas, mas raramente recebem treinamento estruturado ou feedback sistemático sobre suas habilidades comunicativas.
Algo que, por vezes, gera insegurança. Especialmente em situações mais delicadas, como lidar com pacientes em sofrimento ou comunicar diagnósticos difíceis.
O internato é também um período de intensas vivências emocionais: pacientes que morrem, famílias em crise, casos clínicos difíceis. Saber se expressar nesses contextos requer maturidade emocional, empatia e equilíbrio, o que nem sempre é fácil para quem ainda está em formação.
Além disso, o medo de errar ou de se envolver demais pode fazer com que o interno adote uma postura mais distante. Como consequência, acaba prejudicando a qualidade da comunicação.
Apesar dos desafios, é possível e necessário desenvolver uma comunicação clínica eficiente durante o internato. Por aqui, apresentamos algumas estratégias práticas que podem ser aplicadas em seus dias de atuação. Bora colocá-las em prática?
Uma das formas mais eficazes de aprimorar a comunicação clínica durante o internato é por meio da participação em simulações realistas e atividades de role-playing. Essas estratégias oferecem um ambiente controlado e seguro para que o estudante possa experimentar situações que vai enfrentar na prática médica, como a condução de uma anamnese, a comunicação de um diagnóstico delicado, a orientação terapêutica ao paciente ou familiar, e o atendimento a situações de emergência.
Ao representar papéis em cenários simulados, com colegas, atores treinados ou pacientes padronizados, o interno tem a oportunidade de exercitar sua linguagem verbal e não verbal, além de refletir sobre a forma como suas atitudes impactam o outro. Nessas simulações, erros não têm consequências clínicas, o que permite maior liberdade para experimentar diferentes abordagens e estilos comunicativos.
O grande diferencial desse tipo de atividade está no feedback estruturado oferecido após a simulação. Esse retorno pode vir de preceptores, observadores externos ou dos próprios colegas.
Para completar, quando bem conduzidas, as simulações contribuem para o desenvolvimento de empatia, tolerância à ambiguidade, raciocínio clínico sob pressão e habilidade de adaptação à diversidade de perfis de pacientes, competências indispensáveis no dia a dia médico.
Embora simulações sejam valiosas, o contato direto com a prática real também é uma fonte riquíssima de aprendizado. Observar preceptores experientes no atendimento a pacientes permite que o interno veja, na prática, como se aplicam os princípios da boa comunicação em contextos complexos, cheios de nuances.
Cada consulta médica é uma oportunidade para perceber como o profissional organiza o diálogo, conduz a entrevista clínica, responde às emoções do paciente, adapta a linguagem à realidade cultural e social do interlocutor, e resolve impasses ou situações delicadas com ética e sensibilidade. Mais do que assistir passivamente, o estudante deve buscar entender o raciocínio comunicativo do médico.
Por que ele escolheu determinada abordagem? O que levou a reforçar certa informação? Como ele acolheu uma queixa emocional ou um comportamento agressivo? Fazer perguntas sobre essas decisões ajuda o interno a construir seu próprio repertório comunicativo, com base em boas práticas.
A comunicação não se resume a falar, inclui também saber ouvir. No internato, a prática constante da escuta ativa é uma das maneiras mais eficazes de melhorar a relação com os pacientes.
Escutar ativamente significa estar presente de forma integral na conversa: prestar atenção às palavras, mas também aos gestos, ao tom de voz, às expressões faciais e ao silêncio do outro. Requer paciência, foco e disposição para compreender o que o paciente diz e o que ele tenta dizer, mesmo sem palavras.
A escuta ativa abre espaço para a empatia. Quando o estudante realmente escuta, consegue perceber os medos, as dúvidas e os sentimentos do paciente, criando uma conexão mais humana e respeitosa. Essa atitude fortalece o vínculo terapêutico, promove segurança e contribui para a adesão ao tratamento.
Vale lembrar que o interno que desenvolve empatia tende a ser mais compreensivo com os limites do paciente, evita julgamentos precipitados e demonstra cuidado genuíno, qualidades que, no contexto da Medicina, fazem toda a diferença na qualidade do atendimento.
Uma comunicação clara, ética e empática melhora diretamente os desfechos clínicos. Pacientes bem-informados aderem melhor aos tratamentos, sentem-se mais seguros e têm menos ansiedade durante o processo de internação ou tratamento ambulatorial.
Além disso, uma comunicação cuidadosa reduz o risco de erros médicos, especialmente em momentos críticos como a passagem de plantão, a entrega de exames ou a prescrição de medicamentos. Do ponto de vista da equipe, uma boa comunicação fortalece o espírito colaborativo, diminui conflitos e aumenta a eficiência.
Os médicos que sabem ouvir opiniões, respeitam os outros profissionais e conseguem expressar suas ideias com clareza contribuem para um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo. O que é particularmente importante em um contexto hospitalar, onde decisões precisam ser rápidas e bem coordenadas.
Para o interno, comunicar-se bem também significa ganhar a confiança da equipe. Ser claro nos relatos de caso, demonstrar interesse em aprender, aceitar feedbacks com maturidade e saber se posicionar com humildade são atitudes que abrem portas, constroem reputações e fortalecem vínculos profissionais importantes para a residência e o futuro depois dela.
É isso aí! Agora você já sabe o que fazer para desenvolver sua comunicação no internato. Pode não parecer fácil a princípio, mas com prática e confiança você com certeza terá bons resultados, que farão muita diferença na sua vida profissional.
Gostou de saber mais sobre esse assunto? Ainda tem mais! Acesse nosso blog para ficar por dentro de mais novidades e dicas que contribuem para sua carreira médica, da graduação ao exercício efetivo da profissão.
Cofundador e professor da Medway, formado pela Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) e com Residência em Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). Siga no Instagram: @mica.medway