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Conjuntivite alérgica: é tudo a mesma coisa?

Hoje o papo será sobre conjuntivite alérgica, ou melhor dizendo, as conjuntivites alérgicas. E já adianto, tem mais coisa a ser falada do que a maioria imagina! Essa comum síndrome ocular está dentro do grande tema conjuntivites e “olho vermelho”, que iremos tratar em outros textos no blog, não se preocupem.

Em todo caso, você, médico do PS, precisa conhecer essa síndrome, pois a maioria dos casos é de fácil manejo e não tem a necessidade de passar pelo especialista. Pois bem, por que há tanto a ser falado sobre um simples quadro de conjuntivite alérgica?

Uma síndrome com 3 entidades principais

Úlcera em escudo da Ceratoconjuntivite Vernal (Fotografia cedida pela Profa. Helena Solari, Setor de Córnea UFF-RJ)

Nem tudo é a mesma coisa quando falamos sobre conjuntivite alérgica. Não quero complicar sua vida, mas veja bem: existe um quadro mais comum, que iremos tratar como Conjuntivite Alérgica Aguda (seu caso na fila do PS) e dois outros quadros, de gravidade variável, chamados de Ceratoconjuntivite Vernal e Ceratoconjuntivite Atópica. Vamos conversar mais sobre o quadro de Conjuntivite Alérgica Aguda, e dar uma pincelada nas duas últimas, já que são mais abordados por especialistas.

Conjuntivite Alérgica Aguda

Esse é o quadro que vai aparecer no PS para você atender. Trata-se de um clássico quadro de hipersensibilidade do Tipo I, aquela mediada por mastócitos e IgE. O sujeito em algum momento de sua vida, entrou em contato via conjuntival (aquela membrana que recobre a parte branca do olho, a esclera) com algum alérgeno de bobeira no meio ambiente (pólen, feno, fungos, ácaro doméstico, pelo de gato…). Um exército de mastócitos sensibilizado fica à espera do próximo contato com o alérgeno, para aí sim desencadear o quadro do nosso paciente: conjuntivite alérgica aguda. 

Pronto: surge então uma queixa aguda de prurido ocular e lacrimejamento, sendo o elemento principal do diagnóstico a quemose conjuntival (edema da conjuntiva). Com uma simples lâmpada de bolso você consegue observar esse edema de conjuntiva, que muitas vezes pode ser bastante intenso. Essas queixas básicas, aliadas à ausência de sinais de alarme (dor ocular intensa, diminuição da acuidade visual, fotofobia) permitem fazer o diagnóstico com certa segurança, e iniciar o tratamento. Compressas frias podem ser iniciadas e irão resolver boa parte dos casos de conjuntivite alérgica aguda, aliada ao uso de lágrimas artificiais (pode fazer 1 gota de 6 em 6 horas).

Em quadros mais subagudos (alguns autores as chamam de conjuntivite alérgica perene/sazonal), o paciente apresenta-se com queixas de ataques transitórios agudos/subagudos de lacrimejamento e prurido, sem tanta quemose conjuntival. Nesses quadros, além das lágrimas artificias, inicia-se uma combinação dual de anti-histamínicos + estabilizador de mastócitos, colírio, que irá resolver a maioria dos casos.

Discreta quemose e hiperemia conjuntival (Fotografia cedida pela Profa. Helena Solari, Setor de Córnea UFF-RJ)

Conjuntivites Vernal e Atópica: potencialmente graves

Nessas duas o buraco é mais embaixo. Aqui o quadro é misto, tanto mediado via IgE, quanto mediado por células. A conjuntivite alérgica do tipo Vernal, chamada também de Ceratoconjuntivite pelo seu potencial comprometimento da córnea (“cerato”), é mais comum em meninos e tem seu início geralmente a partir dos 5 anos de idade. A grande marca dessa doença é a formação de papilas gigantes na conjuntiva tarsal (aquela membrana por detrás das pálpebras), que podem mecanicamente lesionar a córnea, causando úlceras (úlcera em escudo), além de sintomas recorrentes de prurido intenso, lacrimejamento, sensação de corpo estranho e até fotofobia. O lado bom é que cerca de 95% dessas crianças entram em remissão na adolescência.

Papilas gigantes tarsais (Fotografia cedida pela Profa. Helena Solari, Setor de Córnea UFF-RJ)

Já a conjuntivite alérgica Atópica (Ceratoconjuntivite Atópica), é mais comum em adultos (30-50 anos o pico) e prossegue uma história pessoal de dermatite atópica prévia, de longa duração. A expectativa de resolução é baixa, e está associada a morbidade visual significativa. Espera-se um quadro cutâneo eczematoso, associado a prurido ocular intenso, lacrimejamento, papilas tarsais geralmente menores do que na Vernal, e também acometimento da córnea, com erosões e defeitos epiteliais.

O tratamento para ambas condições é similar, embora na conjuntivite alérgica atópica ele seja menos responsivo e requer maior intensidade e tempo. Ele varia desde uso tópico de anti-histamínicos + estabilizador de mastócitos, corticoide tópico, ciclosporina tópica, ou mesmo o uso sistêmico dos mesmos. Esse, meu amigo, é para encaminhar para o Oftalmologista. No PS vamos ficar apenas com a conjuntivite alérgica aguda mesmo.

Depois desse breve falatório, podemos ter uma certa tranquilidade para manejar uma das principais causas de olho vermelho que irão aparecer no seu PS! Por hoje é só, logo iremos conversar mais sobre outros temas sobre essa área nebulosa da graduação que se chama Oftalmologia.

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Até a próxima! 

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RafaelErthal Robbs

Rafael Erthal Robbs

Nascido e criado em Niterói, médico graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atual residente de Oftalmologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).