Olá pessoal, tudo bem? Hoje nós vamos conversar sobre a acne vulgar, rosácea e algumas outras dermatoses inflamatórias. Essas condições constituem um grupo heterogêneo de doenças cutâneas de elevada prevalência, com impacto significativo na qualidade de vida e grande relevância na prática clínica.
Apesar de frequentemente compartilharem manifestações clínicas semelhantes, como pápulas, pústulas e eritema, elas apresentam fisiopatologia, evolução e estratégias terapêuticas distintas.
O reconhecimento acurado dessas diferenças é essencial para o diagnóstico diferencial adequado e para a condução terapêutica baseada em evidências dessas dermatoses inflamatórias.
A acne vulgar é uma dermatose inflamatória crônica da unidade pilossebácea, caracterizada pela presença de lesões não inflamatórias, como comedões abertos e fechados, e lesões inflamatórias, incluindo pápulas, pústulas, nódulos e cistos.
Trata-se de uma das doenças dermatológicas mais comuns globalmente, com prevalência estimada em cerca de 9,4%, acometendo principalmente adolescentes, mas podendo persistir na idade adulta. Sua fisiopatologia envolve quatro pilares principais: hiperqueratinização folicular, aumento da produção sebácea, colonização por Cutibacterium acnes e resposta inflamatória local.
Esses fatores atuam de forma interdependente, resultando na formação de comedões e posterior evolução para lesões inflamatórias.

Do ponto de vista clínico, a acne apresenta grande variabilidade fenotípica. A forma comedoniana é predominantemente não inflamatória e representa frequentemente o estágio inicial da doença.
Já a acne papulopustulosa é a apresentação mais comum, caracterizada pela coexistência de comedões e lesões inflamatórias superficiais. Em casos mais graves, podem surgir nódulos e cistos, configurando a acne nodulocística, que está associada a maior risco de cicatrizes permanentes.
A classificação da gravidade é fundamental para orientar o tratamento, que deve ser individualizado conforme o tipo e a extensão das lesões. As diretrizes europeias mais recentes enfatizam uma abordagem escalonada e baseada na gravidade.
Para formas leves, o uso de terapias tópicas é o padrão, destacando-se os retinoides tópicos, o peróxido de benzoíla e o ácido azelaico. Combinações fixas, como adapaleno associado ao peróxido de benzoíla, apresentam alta recomendação devido à eficácia e ao menor risco de resistência bacteriana.
Nas formas moderadas a graves, associa-se terapia sistêmica, principalmente antibióticos orais por tempo limitado, idealmente até três meses, para reduzir o risco de resistência. Em casos graves, como acne nodular ou conglobata, a isotretinoína oral é fortemente recomendada como tratamento de escolha.
Em mulheres, terapias hormonais e o uso de espironolactona podem ser considerados como adjuvantes, especialmente em contextos de hiperandrogenismo. Cabe citar ainda indicação da isotretinoína oral mediante sofrimento psicológico gerado pela acne e formação de cicatrizes.
A rosácea, por sua vez, é uma dermatose inflamatória crônica predominantemente facial, caracterizada por eritema persistente, flushing, telangiectasias e lesões inflamatórias semelhantes às da acne, porém sem comedões. Afeta principalmente adultos entre 30 e 50 anos e apresenta curso flutuante, com períodos de exacerbação e remissão.
Embora tradicionalmente classificada em subtipos — eritematotelangiectásica, papulopustulosa, fimatosa e ocular —, a abordagem atual prioriza o fenótipo clínico, permitindo uma avaliação mais individualizada da doença.
A fisiopatologia da rosácea é complexa e multifatorial, envolvendo disfunção neurovascular, alterações da imunidade inata e participação de fatores ambientais e microbiológicos. Estudos demonstram que a ativação de receptores do tipo Toll (TLR2) e a produção aumentada de peptídeos antimicrobianos, como a catelicidina LL-37, desempenham papel central na inflamação cutânea.
Além disso, a ativação do inflamassoma, especialmente via NLRP3, contribui para a produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β e TNF-α, perpetuando o processo inflamatório. Fatores desencadeantes como calor, álcool, alimentos picantes, radiação ultravioleta e estresse emocional atuam exacerbando essas vias inflamatórias.

O diagnóstico da rosácea é essencialmente clínico e baseia-se na presença de eritema centrofacial persistente associado a manifestações como pápulas, pústulas e telangiectasias.
A ausência de comedões é um dado importante para diferenciar da acne vulgar. O acometimento ocular deve ser sempre investigado, pois pode ocorrer em até 75% dos casos, manifestando-se como blefarite, conjuntivite ou ceratite.
O manejo da rosácea envolve medidas gerais e terapias farmacológicas direcionadas ao fenótipo predominante. A identificação e evitação de fatores desencadeantes são fundamentais. Fotoproteção rigorosa e uso de dermocosméticos adequados ajudam a restaurar a barreira cutânea.
Para o tratamento do eritema persistente, agentes vasoconstritores tópicos como brimonidina e oximetazolina são opções eficazes. Já as lesões inflamatórias são tratadas preferencialmente com agentes tópicos como metronidazol, ácido azelaico e ivermectina.
Em casos moderados a graves, antibióticos orais, especialmente doxiciclina em baixa dose, são indicados devido ao seu efeito anti-inflamatório. A isotretinoína em baixas doses pode ser considerada em casos refratários.
As dermatoses inflamatórias englobam ainda outras condições que podem mimetizar acne e rosácea, como dermatite seborreica, dermatite perioral, lúpus cutâneo e foliculites. A dermatite seborreica, por exemplo, caracteriza-se por eritema associado a descamação oleosa, frequentemente em áreas ricas em glândulas sebáceas.
Já a dermatite perioral apresenta pápulas eritematosas ao redor da boca, poupando a região perioral imediata, e está frequentemente associada ao uso de corticosteroides tópicos.
O diagnóstico diferencial entre essas condições é essencial para evitar tratamentos inadequados. A presença de comedões favorece o diagnóstico de acne, enquanto sua ausência, associada a eritema persistente e flushing, sugere rosácea. Lesões monomórficas e pruriginosas podem indicar foliculite, enquanto descamação oleosa aponta para dermatite seborreica.
Do ponto de vista terapêutico, um aspecto crucial no manejo das dermatoses inflamatórias é a abordagem individualizada, considerando não apenas a gravidade clínica, mas também fatores psicossociais.
A acne, em especial, pode causar impacto significativo na autoestima, ansiedade e depressão, reforçando a importância de um manejo precoce e eficaz. A adesão ao tratamento é um desafio frequente e deve ser abordada com educação do paciente e expectativas realistas quanto ao tempo de resposta terapêutica.
Além disso, avanços recentes têm ampliado o arsenal terapêutico, incluindo novos retinoides tópicos, como o trifaroteno, e agentes antiandrogênicos tópicos, como o clascoterona, que oferecem alternativas promissoras, especialmente em casos resistentes.
Na rosácea, o melhor entendimento das vias inflamatórias tem impulsionado o desenvolvimento de terapias direcionadas, com potencial para melhorar significativamente os desfechos clínicos.
Em síntese, acne, rosácea e outras dermatoses inflamatórias compartilham manifestações clínicas, mas diferem substancialmente em sua fisiopatologia e manejo. O diagnóstico preciso, baseado em avaliação clínica detalhada, e o tratamento individualizado, fundamentado em evidências, são essenciais para o controle adequado dessas condições.
O conhecimento atualizado das diretrizes e dos mecanismos patogênicos permite ao médico oferecer uma abordagem mais eficaz e centrada no paciente, reduzindo complicações e melhorando a qualidade de vida.
Formada em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF-MG) é especialista em Dermatologia pela Unesp.