Acne, Rosácea e Dermatoses Inflamatórias: diagnósticos e manejo clínico

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Olá pessoal, tudo bem? Hoje nós vamos conversar sobre a acne vulgar, rosácea e algumas outras dermatoses inflamatórias. Essas condições constituem um grupo heterogêneo de doenças cutâneas de elevada prevalência, com impacto significativo na qualidade de vida e grande relevância na prática clínica. 

Apesar de frequentemente compartilharem manifestações clínicas semelhantes, como pápulas, pústulas e eritema, elas apresentam fisiopatologia, evolução e estratégias terapêuticas distintas. 

O reconhecimento acurado dessas diferenças é essencial para o diagnóstico diferencial adequado e para a condução terapêutica baseada em evidências dessas dermatoses inflamatórias.

Dermatoses inflamatórias: Acne Vulgar

A acne vulgar é uma dermatose inflamatória crônica da unidade pilossebácea, caracterizada pela presença de lesões não inflamatórias, como comedões abertos e fechados, e lesões inflamatórias, incluindo pápulas, pústulas, nódulos e cistos. 

Trata-se de uma das doenças dermatológicas mais comuns globalmente, com prevalência estimada em cerca de 9,4%, acometendo principalmente adolescentes, mas podendo persistir na idade adulta. Sua fisiopatologia envolve quatro pilares principais: hiperqueratinização folicular, aumento da produção sebácea, colonização por Cutibacterium acnes e resposta inflamatória local. 

Esses fatores atuam de forma interdependente, resultando na formação de comedões e posterior evolução para lesões inflamatórias.

Acne, Rosácea e Dermatoses Inflamatórias: diagnósticos e manejo clínico
Foto: lesões de acne vulgar. Nas setas amarelas evidenciadas pústulas, nas setas amarelas eritema pós-inflamatório e nas setas brancas pápulas. | Fonte: Geng R, Sibbald RG. Acne Vulgaris: Clinical Aspects and Treatments. Adv Skin Wound Care. 2024 Feb 1;37(2):67-75. doi: 10.1097/ASW.0000000000000089. PMID: 38241449.

Do ponto de vista clínico, a acne apresenta grande variabilidade fenotípica. A forma comedoniana é predominantemente não inflamatória e representa frequentemente o estágio inicial da doença. 

Já a acne papulopustulosa é a apresentação mais comum, caracterizada pela coexistência de comedões e lesões inflamatórias superficiais. Em casos mais graves, podem surgir nódulos e cistos, configurando a acne nodulocística, que está associada a maior risco de cicatrizes permanentes. 

A classificação da gravidade é fundamental para orientar o tratamento, que deve ser individualizado conforme o tipo e a extensão das lesões. As diretrizes europeias mais recentes enfatizam uma abordagem escalonada e baseada na gravidade. 

Para formas leves, o uso de terapias tópicas é o padrão, destacando-se os retinoides tópicos, o peróxido de benzoíla e o ácido azelaico. Combinações fixas, como adapaleno associado ao peróxido de benzoíla, apresentam alta recomendação devido à eficácia e ao menor risco de resistência bacteriana. 

Nas formas moderadas a graves, associa-se terapia sistêmica, principalmente antibióticos orais por tempo limitado, idealmente até três meses, para reduzir o risco de resistência. Em casos graves, como acne nodular ou conglobata, a isotretinoína oral é fortemente recomendada como tratamento de escolha. 

Em mulheres, terapias hormonais e o uso de espironolactona podem ser considerados como adjuvantes, especialmente em contextos de hiperandrogenismo. Cabe citar ainda indicação da isotretinoína oral mediante sofrimento psicológico gerado pela acne e formação de cicatrizes.

Dermatoses inflamatórias: Rosácea

A rosácea, por sua vez, é uma dermatose inflamatória crônica predominantemente facial, caracterizada por eritema persistente, flushing, telangiectasias e lesões inflamatórias semelhantes às da acne, porém sem comedões. Afeta principalmente adultos entre 30 e 50 anos e apresenta curso flutuante, com períodos de exacerbação e remissão. 

Embora tradicionalmente classificada em subtipos — eritematotelangiectásica, papulopustulosa, fimatosa e ocular —, a abordagem atual prioriza o fenótipo clínico, permitindo uma avaliação mais individualizada da doença.

A fisiopatologia da rosácea é complexa e multifatorial, envolvendo disfunção neurovascular, alterações da imunidade inata e participação de fatores ambientais e microbiológicos. Estudos demonstram que a ativação de receptores do tipo Toll (TLR2) e a produção aumentada de peptídeos antimicrobianos, como a catelicidina LL-37, desempenham papel central na inflamação cutânea. 

Além disso, a ativação do inflamassoma, especialmente via NLRP3, contribui para a produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β e TNF-α, perpetuando o processo inflamatório. Fatores desencadeantes como calor, álcool, alimentos picantes, radiação ultravioleta e estresse emocional atuam exacerbando essas vias inflamatórias.

Acne, Rosácea e Dermatoses Inflamatórias: diagnósticos e manejo clínico
Foto: rosácea eritematotelangectásica (A) e papulopustular (B). | Fonte: van Zuuren EJ. Rosacea. N Engl J Med. 2017 Nov 2;377(18):1754-1764. doi: 10.1056/NEJMcp1506630. PMID: 29091565.

O diagnóstico da rosácea é essencialmente clínico e baseia-se na presença de eritema centrofacial persistente associado a manifestações como pápulas, pústulas e telangiectasias. 

A ausência de comedões é um dado importante para diferenciar da acne vulgar. O acometimento ocular deve ser sempre investigado, pois pode ocorrer em até 75% dos casos, manifestando-se como blefarite, conjuntivite ou ceratite.

O manejo da rosácea envolve medidas gerais e terapias farmacológicas direcionadas ao fenótipo predominante. A identificação e evitação de fatores desencadeantes são fundamentais. Fotoproteção rigorosa e uso de dermocosméticos adequados ajudam a restaurar a barreira cutânea. 

Para o tratamento do eritema persistente, agentes vasoconstritores tópicos como brimonidina e oximetazolina são opções eficazes. Já as lesões inflamatórias são tratadas preferencialmente com agentes tópicos como metronidazol, ácido azelaico e ivermectina. 

Em casos moderados a graves, antibióticos orais, especialmente doxiciclina em baixa dose, são indicados devido ao seu efeito anti-inflamatório. A isotretinoína em baixas doses pode ser considerada em casos refratários.

Outras dermatoses inflamatórias

As dermatoses inflamatórias englobam ainda outras condições que podem mimetizar acne e rosácea, como dermatite seborreica, dermatite perioral, lúpus cutâneo e foliculites. A dermatite seborreica, por exemplo, caracteriza-se por eritema associado a descamação oleosa, frequentemente em áreas ricas em glândulas sebáceas. 

Já a dermatite perioral apresenta pápulas eritematosas ao redor da boca, poupando a região perioral imediata, e está frequentemente associada ao uso de corticosteroides tópicos.

O diagnóstico diferencial entre essas condições é essencial para evitar tratamentos inadequados. A presença de comedões favorece o diagnóstico de acne, enquanto sua ausência, associada a eritema persistente e flushing, sugere rosácea. Lesões monomórficas e pruriginosas podem indicar foliculite, enquanto descamação oleosa aponta para dermatite seborreica.

Do ponto de vista terapêutico, um aspecto crucial no manejo das dermatoses inflamatórias é a abordagem individualizada, considerando não apenas a gravidade clínica, mas também fatores psicossociais. 

A acne, em especial, pode causar impacto significativo na autoestima, ansiedade e depressão, reforçando a importância de um manejo precoce e eficaz. A adesão ao tratamento é um desafio frequente e deve ser abordada com educação do paciente e expectativas realistas quanto ao tempo de resposta terapêutica.

Além disso, avanços recentes têm ampliado o arsenal terapêutico, incluindo novos retinoides tópicos, como o trifaroteno, e agentes antiandrogênicos tópicos, como o clascoterona, que oferecem alternativas promissoras, especialmente em casos resistentes. 

Na rosácea, o melhor entendimento das vias inflamatórias tem impulsionado o desenvolvimento de terapias direcionadas, com potencial para melhorar significativamente os desfechos clínicos.

Em síntese, acne, rosácea e outras dermatoses inflamatórias compartilham manifestações clínicas, mas diferem substancialmente em sua fisiopatologia e manejo. O diagnóstico preciso, baseado em avaliação clínica detalhada, e o tratamento individualizado, fundamentado em evidências, são essenciais para o controle adequado dessas condições. 

O conhecimento atualizado das diretrizes e dos mecanismos patogênicos permite ao médico oferecer uma abordagem mais eficaz e centrada no paciente, reduzindo complicações e melhorando a qualidade de vida. 

Referências:

  1. van Zuuren EJ. Rosacea. N Engl J Med. 2017 Nov 2;377(18):1754-1764. doi: 10.1056/NEJMcp1506630. PMID: 29091565.
  2. Geng RSQ, Bourkas AN, Mufti A, Sibbald RG. Rosacea: Pathogenesis and Therapeutic Correlates. J Cutan Med Surg. 2024 Mar-Apr;28(2):178-189. doi: 10.1177/12034754241229365. Epub 2024 Mar 7. PMID: 38450615; PMCID: PMC11015710.
  3. Geng R, Sibbald RG. Acne Vulgaris: Clinical Aspects and Treatments. Adv Skin Wound Care. 2024 Feb 1;37(2):67-75. doi: 10.1097/ASW.0000000000000089. PMID: 38241449.
  4. Nast A, Al Wattar BH, Beylot Barry M, Brüggemann H, Bukvić Mokos Z, Caruana DM, et al. Update of the EuroGuiDerm evidence-based guideline for the treatment of acne—Short version. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2026;00:1–11.

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Elisandra Pontes

Elisandra Pontes

Formada em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF-MG) é especialista em Dermatologia pela Unesp.