Fecaloma: aprenda sobre achados nos exames de imagem e conduta clínica

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O fecaloma é uma condição frequente na prática médica, especialmente em contextos de urgência e emergência. Embora pareça um diagnóstico simples, sua identificação precisa nos exames de imagem é fundamental para evitar complicações graves, como a perfuração estercoral.

Neste artigo, revisaremos a fisiopatologia, os sinais clínicos e, detalhadamente, os achados na radiografia e na tomografia computadorizada.

O que é Fecaloma?

O fecaloma define-se como uma massa de fezes endurecidas e compactas que se acumulam na luz intestinal. Diferente da constipação comum, o fecaloma representa um estágio de impactação fecal extrema, onde o bolo fecal adquire consistência pétrea.

A localização mais comum para a formação dessas massas é o reto e o cólon sigmoide.

Fatores de risco e quadro clínico do Fecaloma

A formação do fecaloma está geralmente associada a condições que lentificam o trânsito intestinal ou prejudicam a evacuação.

Principais fatores de risco do Fecaloma:

  • Imobilidade prolongada (comum em pacientes idosos ou acamados).
  • Uso crônico de medicações, especialmente opioides e anticolinérgicos.
  • Condições neurológicas, como a Doença de Parkinson.
  • Processos neoplásicos (câncer colorretal) ou inflamatórios intestinais.

Dessa forma, pacientes idosos, com doenças neuropsiquiátricas e  hospitalizados/institucionalizados são grupos de alto risco.

Sinais e sintomas do Fecaloma:

Os sintomas são frequentemente inespecíficos, o que exige alto índice de suspeição clínica:

  • Constipação severa e dor abdominal.
  • Diarreia por transbordamento (paradoxal): escape de fezes líquidas ao redor da massa impactada. Dica: Suspeitar pela história clínica quando paciente referir dias de constipação seguido de diarreia sem uso de laxantes.
  • Sintomas urinários e pressão pélvica por compressão extrínseca da bexiga.
  • Palpação de massa hipogástrica firme.

Achados na Radiografia de abdome

A radiografia costuma ser o exame inicial devido à sua disponibilidade. O sinal clássico é a presença de uma massa heterogênea centrada na região hipogástrica ou trajeto do cólon.

  • Sinal do “Miolo de Pão”: É o achado patognomônico, caracterizado por uma massa de fezes entremeada por pequenas bolhas de gás, conferindo um aspecto mosqueado.
  • Localização: Frequentemente visualizado na ampola retal, podendo causar distensão gasosa das alças a montante.

Achados na tomografia computadorizada (TC)

A TC de abdome e pelve possui maior sensibilidade e é essencial para avaliar complicações.

  • Aspecto Tomográfico: Observa-se uma massa heterogênea com densidade de fezes e bolhas de gás de permeio (repetindo o aspecto de “miolo de pão”) que distende a luz da alça.
  • Efeito Obstrutivo: Frequentemente há uma importante distensão líquida e gasosa do cólon proximal ao ponto da impactação.

Complicações e Sinais de Alerta

Retirar o fecaloma é vital para prevenir desfechos fatais:

  1. Colite Estercoral: Inflamação da parede do cólon causada pela pressão direta e isquemia local exercida pelas fezes endurecidas.
  2. Perfuração Estercoral: Necrose focal da parede colorretal decorrente da pressão intraluminal acentuada, evoluindo para abdome agudo perfurativo e peritonite.

Manejo do Fecaloma sem complicações

1. Tratamento Farmacológico

O polietilenoglicol (PEG) é considerado o tratamento de primeira linha para desimpactação fecal, sendo mais eficaz que outros agentes, bem tolerado e com baixo risco de efeitos adversos.O PEG funciona como polímero osmótico minimamente absorvido, promovendo retenção de água no intestino e amolecimento das fezes. Laxativos osmóticos alternativos incluem lactulose e citrato de magnésio.

2. Tratamento Retal

Enemas são recomendados como terapia de segunda linha quando PEG não está disponível ou falha. Enemas de glicerofosfato são comumente usados na prática clínica no Brasil.

3. Desimpactação manual: 

Embora a prática de desimpactação manual seja comum em alguns serviços de pronto atendimento e hospitais no Brasil, a evidência internacional não suporta seu uso rotineiro. A literatura enfatiza que métodos farmacológicos (PEG, enemas, gastrografina) são igualmente ou mais eficazes, com perfil de segurança superior. 

Prevenção de recorrência do Fecaloma

Como recorrências são comuns, medidas preventivas são essenciais: 

  • Aumento da ingesta hídrica e de fibras dietéticas
  • Limitação de medicações que reduzem motilidade colônica (opioides, anticolinérgicos)]
  • Uso de secretagogos ou procinéticos quando apropriado
  • Tratamento de defeitos anatômicos subjacentes.

Referências Bibliográficas

  1. Medway. Fecaloma: achados nos exames de imagem. Disponível em: https://www.google.com/search?q=medway.com.br.
  2. Gastrointestinal Imaging Guidelines (Referência sugerida para atualização conforme práticas internacionais).
  3. American College of Radiology (ACR) Appropriateness Criteria for Anorectal Disease.

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Luisa Leitão

Luisa Leitão

Mineira, millennial e radiologista fanática. Formou-se em Radiologia pelo HCFMUSP na turma 2017-2020 e realizou fellow em Radiologia Torácica e Abdominal em 2020-2021 no mesmo instituto, além de ter sido preceptora da residência de Radiologia por 1 ano e meio. Apaixonada por pão de queijo, café e ensinar radiologia.