Laqueadura tubária: tudo que você precisa saber

Conteúdo / Medicina de Emergência / Laqueadura Tubária: o que é, riscos, cirurgia e critérios da Nova Lei

A laqueadura tubária é um dos métodos contraceptivos definitivos mais utilizados no mundo. Apesar de ser amplamente conhecida, ainda existem muitas dúvidas entre pacientes, estudantes de medicina e profissionais de saúde sobre suas indicações, técnica cirúrgica, riscos e, principalmente, sobre as mudanças trazidas pela nova legislação brasileira.

Neste texto, vamos abordar de forma clara o que é a laqueadura tubária, como é realizada, quais são seus riscos e benefícios, além de explicar os critérios atualizados da lei brasileira que regulamenta o procedimento.

O que é a laqueadura tubária?

A laqueadura tubária, também chamada de esterilização cirúrgica feminina, é um método contraceptivo definitivo que tem como objetivo impedir a gravidez por meio da interrupção do trajeto das tubas uterinas.

As tubas (ou trompas) são responsáveis por transportar o óvulo do ovário até o útero e permitir o encontro com o espermatozoide. Quando esse caminho é interrompido, a fecundação deixa de ser possível.

Segundo a American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), a laqueadura é considerada um método altamente eficaz, com taxa de falha muito baixa quando comparada a métodos reversíveis.

É importante destacar que, teoricamente, a laqueadura:

  • NÃO interfere nos hormônios femininos
  • NÃO altera o ciclo menstrual
  • NÃO causa menopausa
  • NÃO afeta a libido

Seu único objetivo é impedir a gestação.

Para quem a laqueadura é indicada?

A laqueadura é indicada para mulheres que:

A decisão deve ser sempre individualizada, levando em conta fatores como idade, número de filhos, estabilidade emocional e compreensão de que se trata de um método, em regra, irreversível.

Tanto a FEBRASGO quanto a ACOG reforçam que o aconselhamento prévio é etapa fundamental antes da indicação da esterilização cirúrgica.

Como é feita a cirurgia?

Existem diferentes tipos de acesso abdominal e técnicas para realizar a laqueadura tubária. A escolha depende do momento em que será feita e das condições clínicas da paciente.

Principais abordagens cirúrgicas:

  1. Laqueadura por laparoscopia
    É o método mais utilizado fora do período pós-parto.
    Realiza-se através de pequenas incisões no abdome, com uso de laparoscópio (câmera) e instrumentos específicos.
    É um procedimento rápido, com recuperação relativamente simples.
  1. Laqueadura durante a cesariana
    É uma das formas mais comuns no Brasil.
    Aproveita-se o acesso cirúrgico já realizado para o parto cesáreo para proceder à ligadura das tubas. É importante salientar que o parto cesárea NÃO DEVE ser indicado somente pelo desejo de laqueadura. Laqueadura não é indicação de cesárea!
  2. Laqueadura no pós-parto imediato
    Também chamada de laqueadura puerperal, pode ser realizada logo após o parto normal, geralmente por minilaparotomia ou incisão periumbilical.

Técnicas de laqueadura

Laqueadora Tubaria
Fonte: MD Saúde (https://www.mdsaude.com/ginecologia/anticoncepcionais/laqueadura-tubaria/)

As técnicas podem ser agrupadas em dois grandes grupos: técnicas por ressecção e ligadura da tuba e por oclusão tubária (sem ressecção).

Dentre as técnicas de ressecção, encontram-se:

  • Técnica de Pomeroy

Mais utilizada no mundo e a mais realizada na laqueadura puerperal. Consiste em formar uma alça da tuba, amarrá-la com fio absorvível e ressecar o segmento central da alça

Técnica de Pomeroy
Fonte: Reproducción Assistida ORG (https://www.reproduccionasistida.org/ligadura-de-trompas/ligadura-trompa-tecnica-pomeroy/)
  • Técnica de Parkland

Técnica mais usada na laqueadura durante a cesárea. A tuba é seccionada entre duas ligaduras separadas e, após, remove-se um segmento intermediário. Não há formação de alça.

  •  Técnica de Irving

Após a secção da tuba o coto proximal é enterrado no miométrio e o coto distal é enterrado no mesossalpinge. Sendo assim, tem por objetivo reduzir ainda mais o risco de recanalização.

Já entre as técnicas e oclusão, encontramos: 

  • Técnica com Anel de Yoon (anel de silicone)

Consiste na colocação de um anel elástico que estrangula um segmento da tuba, produzindo necrose local e oclusão definitiva
Comum em laqueadura laparoscópica.

  • Técnica com Clipe de Filshie

Colocado transversalmente na tuba um clipe metálico com revestimento de silicone

  • Eletrocoagulação Tubária

A coagulação térmica provoca destruição do segmento tubário e sua oclusão.

Bastante utilizada em laparoscopia ginecológica.

Eficácia do método

A laqueadura é considerada um dos métodos contraceptivos mais eficazes disponíveis.

De acordo com dados clássicos de Peterson e colaboradores, a taxa de falha é inferior a 1% ao longo da vida reprodutiva da mulher.

Ainda assim, nenhuma técnica é absolutamente infalível. Raramente pode ocorrer recanalização das tubas, levando a gestação inesperada – muitas vezes ectópica.

Além de contracepção definitiva, traz o benefício adicional de redução do risco de câncer de ovário seroso de alto grau.

Quais são os riscos da laqueadura?

Como qualquer procedimento cirúrgico, a laqueadura apresenta riscos, embora sejam baixos quando realizada por equipe treinada.

Os principais riscos incluem:

  • Sangramento
  • Infecção
  • Lesão de órgãos adjacentes (bexiga, intestino)
  • Complicações anestésicas
  • Dor pélvica
  • Falha do método
  • Gravidez ectópica em caso de falha

É fundamental que a paciente seja orientada adequadamente sobre esses riscos antes da cirurgia.

Importante lembrar: a laqueadura NÃO protege contra infecções sexualmente transmissíveis.

Laqueadura é reversível?

Do ponto de vista técnico, existem cirurgias de reversão (reanastomose tubária). Entretanto são procedimentos complexos e nem sempre bem-sucedidos.

Por isso, tanto ACOG quanto FEBRASGO enfatizam que a laqueadura deve ser encarada como MÉTODO DEFINITIVO.

A alternativa para mulheres laqueadas que desejam nova gestação costuma ser a fertilização in vitro.

Critérios legais para laqueadura no Brasil: o que mudou com a nova lei?

Até 2023, a Lei nº 9.263/1996 impunha critérios mais rígidos para a realização da laqueadura, como:

  • Idade mínima de 25 anos OU pelo menos dois filhos vivos
  • Necessidade de consentimento do cônjuge
  • Prazo mínimo de 60 dias entre manifestação de vontade e cirurgia
  • Restrições importantes para realização no momento do parto

Com a aprovação da Lei nº 14.443/2022, que entrou em vigor em março de 2023, ocorreram mudanças significativas.

Principais alterações da nova lei:

  1. Idade mínima reduzida: agora, a laqueadura pode ser realizada em mulheres a partir de 21 anos, independentemente do número de filhos.
  2. Fim da exigência de consentimento do cônjuge: não é mais necessário que o parceiro assine termo autorizando o procedimento. A decisão passa a ser exclusivamente da mulher, respeitando sua autonomia reprodutiva.
  1. Possibilidade de laqueadura no momento do parto
    A nova lei permite expressamente a realização da laqueadura durante o parto (normal ou cesárea), desde que haja manifestação prévia de vontade e seja respeitado o prazo mínimo de 60 dias entre o pedido formal e o procedimento.
  2. Manutenção do prazo de reflexão: permanece obrigatório o intervalo mínimo de 60 dias entre a solicitação formal e a realização da cirurgia, período destinado ao aconselhamento.

Situações especiais

Algumas condições merecem atenção especial na indicação da laqueadura:

  • Mulheres muito jovens
  • Pacientes sem filhos
  • Contextos de instabilidade conjugal
  • Quadros psiquiátricos ou emocionais

Nesses cenários, o aconselhamento deve ser ainda mais cuidadoso, evitando decisões precipitadas que possam gerar arrependimento futuro.

Laqueadura e ética médica

A esterilização feminina envolve aspectos técnicos, legais e éticos.

O papel do médico não é julgar a decisão da paciente, mas sim:

  • Informar adequadamente
  • Esclarecer dúvidas
  • Garantir que a escolha seja consciente
  • Respeitar a autonomia reprodutiva

Negar o procedimento sem justificativa técnica ou legal pode configurar violação de direitos.

A laqueadura tubária é um método contraceptivo seguro, eficaz e amplamente utilizado. Para o estudante de medicina, compreender seus aspectos técnicos, legais e éticos é fundamental para a boa prática clínica.

Os pontos-chave que você deve levar deste tema são:

  • A laqueadura é método definitivo
  • Possui alta eficácia contraceptiva
  • Pode ser realizada por diferentes técnicas cirúrgicas
  • Envolve riscos baixos, mas existentes
  • A nova lei brasileira ampliou o acesso ao procedimento
  • O consentimento do cônjuge não é mais exigido
  • O aconselhamento continua sendo etapa indispensável

Com as mudanças legislativas recentes, espera-se maior autonomia das mulheres sobre suas escolhas reprodutivas e maior segurança jurídica para os profissionais de saúde.

Dominar esse tema é essencial para quem pretende atuar na área de ginecologia e obstetrícia – e também para qualquer médico que trabalhe com saúde da mulher.

Referências 

  • American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Sterilization for Women: Ethical Issues and Considerations.
  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Protocolos de Planejamento Familiar e Esterilização Cirúrgica.
  • Peterson HB et al. The risk of pregnancy after tubal sterilization: findings from the U.S. Collaborative Review of Sterilization.

Brasil. Lei nº 14.443/2022 – Alterações na Lei do Planejamento Familiar.

É médico e quer contribuir para o blog da Medway?

Cadastre-se
Daniela Simões Simonian

Daniela Simões Simonian

Graduada em Medicina pela PUC Campinas. Realizou a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela mesma instituição e se subespecializou em Medicina Fetal pela USP-RP.