A laqueadura tubária é um dos métodos contraceptivos definitivos mais utilizados no mundo. Apesar de ser amplamente conhecida, ainda existem muitas dúvidas entre pacientes, estudantes de medicina e profissionais de saúde sobre suas indicações, técnica cirúrgica, riscos e, principalmente, sobre as mudanças trazidas pela nova legislação brasileira.
Neste texto, vamos abordar de forma clara o que é a laqueadura tubária, como é realizada, quais são seus riscos e benefícios, além de explicar os critérios atualizados da lei brasileira que regulamenta o procedimento.
A laqueadura tubária, também chamada de esterilização cirúrgica feminina, é um método contraceptivo definitivo que tem como objetivo impedir a gravidez por meio da interrupção do trajeto das tubas uterinas.
As tubas (ou trompas) são responsáveis por transportar o óvulo do ovário até o útero e permitir o encontro com o espermatozoide. Quando esse caminho é interrompido, a fecundação deixa de ser possível.
Segundo a American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), a laqueadura é considerada um método altamente eficaz, com taxa de falha muito baixa quando comparada a métodos reversíveis.
É importante destacar que, teoricamente, a laqueadura:
Seu único objetivo é impedir a gestação.
A laqueadura é indicada para mulheres que:
A decisão deve ser sempre individualizada, levando em conta fatores como idade, número de filhos, estabilidade emocional e compreensão de que se trata de um método, em regra, irreversível.
Tanto a FEBRASGO quanto a ACOG reforçam que o aconselhamento prévio é etapa fundamental antes da indicação da esterilização cirúrgica.
Existem diferentes tipos de acesso abdominal e técnicas para realizar a laqueadura tubária. A escolha depende do momento em que será feita e das condições clínicas da paciente.

As técnicas podem ser agrupadas em dois grandes grupos: técnicas por ressecção e ligadura da tuba e por oclusão tubária (sem ressecção).
Mais utilizada no mundo e a mais realizada na laqueadura puerperal. Consiste em formar uma alça da tuba, amarrá-la com fio absorvível e ressecar o segmento central da alça

Técnica mais usada na laqueadura durante a cesárea. A tuba é seccionada entre duas ligaduras separadas e, após, remove-se um segmento intermediário. Não há formação de alça.
Após a secção da tuba o coto proximal é enterrado no miométrio e o coto distal é enterrado no mesossalpinge. Sendo assim, tem por objetivo reduzir ainda mais o risco de recanalização.
Consiste na colocação de um anel elástico que estrangula um segmento da tuba, produzindo necrose local e oclusão definitiva
Comum em laqueadura laparoscópica.
Colocado transversalmente na tuba um clipe metálico com revestimento de silicone
A coagulação térmica provoca destruição do segmento tubário e sua oclusão.
Bastante utilizada em laparoscopia ginecológica.
A laqueadura é considerada um dos métodos contraceptivos mais eficazes disponíveis.
De acordo com dados clássicos de Peterson e colaboradores, a taxa de falha é inferior a 1% ao longo da vida reprodutiva da mulher.
Ainda assim, nenhuma técnica é absolutamente infalível. Raramente pode ocorrer recanalização das tubas, levando a gestação inesperada – muitas vezes ectópica.
Além de contracepção definitiva, traz o benefício adicional de redução do risco de câncer de ovário seroso de alto grau.
Como qualquer procedimento cirúrgico, a laqueadura apresenta riscos, embora sejam baixos quando realizada por equipe treinada.
Os principais riscos incluem:
É fundamental que a paciente seja orientada adequadamente sobre esses riscos antes da cirurgia.
Importante lembrar: a laqueadura NÃO protege contra infecções sexualmente transmissíveis.
Do ponto de vista técnico, existem cirurgias de reversão (reanastomose tubária). Entretanto são procedimentos complexos e nem sempre bem-sucedidos.
Por isso, tanto ACOG quanto FEBRASGO enfatizam que a laqueadura deve ser encarada como MÉTODO DEFINITIVO.
A alternativa para mulheres laqueadas que desejam nova gestação costuma ser a fertilização in vitro.
Até 2023, a Lei nº 9.263/1996 impunha critérios mais rígidos para a realização da laqueadura, como:
Com a aprovação da Lei nº 14.443/2022, que entrou em vigor em março de 2023, ocorreram mudanças significativas.
Algumas condições merecem atenção especial na indicação da laqueadura:
Nesses cenários, o aconselhamento deve ser ainda mais cuidadoso, evitando decisões precipitadas que possam gerar arrependimento futuro.
A esterilização feminina envolve aspectos técnicos, legais e éticos.
O papel do médico não é julgar a decisão da paciente, mas sim:
Negar o procedimento sem justificativa técnica ou legal pode configurar violação de direitos.
A laqueadura tubária é um método contraceptivo seguro, eficaz e amplamente utilizado. Para o estudante de medicina, compreender seus aspectos técnicos, legais e éticos é fundamental para a boa prática clínica.
Os pontos-chave que você deve levar deste tema são:
Com as mudanças legislativas recentes, espera-se maior autonomia das mulheres sobre suas escolhas reprodutivas e maior segurança jurídica para os profissionais de saúde.
Dominar esse tema é essencial para quem pretende atuar na área de ginecologia e obstetrícia – e também para qualquer médico que trabalhe com saúde da mulher.
Brasil. Lei nº 14.443/2022 – Alterações na Lei do Planejamento Familiar.
Graduada em Medicina pela PUC Campinas. Realizou a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela mesma instituição e se subespecializou em Medicina Fetal pela USP-RP.