O Paciente Politraumatizado: Abordagem Inicial seguindo o Protocolo ATLS

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O trauma não é apenas um evento mecânico; é uma crise fisiológica onde cada segundo dita o prognóstico. No cenário da emergência, o caos só é vencido pela sistematização. Por décadas, o protocolo Advanced Trauma Life Support (ATLS) tem sido a espinha dorsal desse atendimento, e sua 11ª edição traz refinamentos que todo médico e acadêmico precisa dominar.

Neste artigo, vamos dissecar a filosofia, a nova sequência xABCDE e as pérolas que as bancas de residência adoram cobrar.

1. Introdução e a Distribuição Trimodal da Morte

O trauma é definido pelo Comitê de Trauma do Colégio Americano de Cirurgiões como uma lesão caracterizada por alterações estruturais e desequilíbrio fisiológico em resposta à energia aguda. No Brasil, é a principal causa de óbito entre 1 e 40 anos de idade.

Historicamente, entendemos a mortalidade no trauma através da distribuição trimodal:

  • Primeiro Pico (Segundos a Minutos): Mortes imediatas por apneia, lesões cerebrais graves ou ruptura de grandes vasos. Aqui, a única solução é a prevenção primária.
  • Segundo Pico (Minutos a Horas): A famosa Golden Hour. É onde o protocolo ATLS atua, focando em causas tratáveis como hematomas extradurais e hemopneumotórax.
  • Terceiro Pico (Dias a Semanas): Mortes por sepse ou disfunção de múltiplos órgãos, frequentemente reflexo de um manejo inicial inadequado.

2. Princípios e Filosofia do ATLS

A premissa fundamental do ATLS é simples, mas poderosa: “Tratar primeiro a maior ameaça à vida”. Não precisamos de um diagnóstico definitivo para iniciar o tratamento. Se o paciente tem um sinal clínico de risco iminente, a intervenção precede a investigação detalhada.

3. Avaliação Primária: O Novo Padrão xABCDE

A 11ª edição oficializou o que antes era restrito ao ambiente militar ou pré-hospitalar: o “x” agora precede o “A”.

X: Hemorragia Exsanguinante Externa

Antes de checar a via aérea, devemos identificar sangramentos catastróficos em extremidades ou couro cabeludo.

  • Ação: Compressão direta e, se ineficaz em extremidades, aplicação imediata de torniquete.
  • Recomendação: O torniquete deve ser aplicado 5-8 cm proximal à lesão, diretamente sobre a pele, e apertado até a cessação do pulso distal.

A: Via Aérea com Restrição de Movimento Cervical

A patência da via aérea é a prioridade subsequente. Se o paciente fala, a via aérea está temporariamente garantida.

  • Manobras: Chin lift ou Jaw thrust (preferencial no trauma por não hiperextender o pescoço).
  • Via Aérea Definitiva: Indicada se Glasgow (ECG < = 8) ou sinais de obstrução iminente.
  • Update ATLS 11: A pressão cricoide (manobra de Sellick) não é mais recomendada de rotina, pois pode dificultar a visualização das cordas vocais.

B: Respiração e Ventilação

Garantida a via aérea, devemos assegurar a troca gasosa. A inspeção, palpação, percussão e ausculta são essenciais.

  • Pneumotórax Hipertensivo: O diagnóstico é clínico.
  • Mudança Crítica (ATLS 11): A descompressão por agulha no adulto deve ser feita no 5º espaço intercostal, anterior à linha axilar média. O antigo local (2º EIC) ainda é aceitável, mas o 5º EIC apresenta maiores taxas de sucesso devido à menor espessura da parede torácica ( também é o espaço onde provavelmente será realizada à drenagem definitiva).

C: Circulação e Controle de Hemorragia

Aqui avaliamos o choque. Lembre-se: no trauma, hipotensão é hipovolemia até que se prove o contrário.

  • Shock Index (Índice de Choque): Definido pela fórmula FC/PAS. Valores >= 0.8 indicam choque e necessidade de intervenção rápida.
  • Ressuscitação Volêmica: O ATLS 11 é enfático na restrição de cristaloides (250-500 mL). O foco mudou para a Ressuscitação Hemostática com Sangue Total (Whole Blood) ou proporção balanceada 1:1:1.
  • Ácido Tranexâmico: Deve ser administrado nas primeiras 3 horas. A 11ª edição admite a dose de 2g em bólus único como alternativa ao esquema tradicional de 1g + 1g.

D: Déficit Neurológico

Avaliação rápida do nível de consciência (ECG) e reatividade pupilar. O objetivo é prevenir a lesão cerebral secundária mantendo oxigenação e perfusão adequadas.

E: Exposição e Controle Ambiental

O paciente deve ser totalmente despido para busca de lesões ocultas, mas deve ser imediatamente aquecido. A hipotermia é parte da “tríade letal” e deve ser combatida com fluidos aquecidos e mantas térmicas.

4. Medidas Auxiliares e a Transição para o Exame Secundário

Durante a avaliação primária, usamos ferramentas como o eFAST e a Radiografia de Tórax e Pelve na sala de trauma para identificar sangramentos internos. A sondagem vesical também é medida auxiliar, respeitando as contraindicações (ex: suspeita de lesão de uretra).

A Avaliação Secundária só começa após a primária estar concluída e o paciente estabilizado. Ela consiste na história AMPLA (Alergias, Medicamentos, Passado médico, Líquidos/alimentos, Ambiente/evento) e no exame físico “da cabeça aos pés”.

5. Indicações de Transferência

A transferência não deve ser retardada por exames complementares complexos (como TC) se o hospital atual não possui recursos para o tratamento definitivo. O ATLS 11 introduziu o modelo de comunicação S-xABCDE-BAR para garantir que a passagem de caso seja estruturada e segura  (Situation, xABCDE, Background, Assessment, Recommendation).

6. O Conteúdo nas Provas de Residência

Pensando nos temas mais quentes, vale ressaltar as mudanças da nova edição:

  1. A oficialização do “X” no início do atendimento.
  2. Hipotensão Permissiva: Manter a PAM entre 50-60 mmHg em traumas penetrantes até o controle do sangramento.
  3. Local da Toracocentese: Agora preferencialmente no 5º EIC para adultos.
  4. Uso de Sangue Total: Substituindo o uso agressivo de cristaloides.
  5. Critérios de Intubação: ECG <=8  e a nova máxima “Ressuscitar antes de Intubar”.

Referências e Links relacionados

AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. Advanced Trauma Life Support (ATLS): Student Course Manual. 11. ed. Chicago: American College of Surgeons, 2025. 

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Lucas Soares Vilani

Lucas Soares Vilani

Formado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). Atualmente, residente em Cirurgia pela mesma instituição.