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Picada de aranha marrom Loxosceles: sintomas e tratamento

E ai galera, tudo bom? O assunto hoje é um pouco diferente do que a gente costuma abordar — e também é um que deixa muita gente agoniada —, mas que nem por isso é menos importante de conhecer. Vamos falar um pouco sobre como identificar sintomas e conduzir casos de picada de aranha marrom, do gênero Loxosceles, relativamente comuns nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, e que podem causar um problemão — o loxoscelismo é a forma mais grave e mais comum.

Tudo pronto? Então se ajeita na cadeira aí e vem com a gente ver como fazer o diagnóstico e o tratamento da picada de aranha marrom no pronto-socorro. Sem medo, hein? Bora lá!

O que é o acidente loxoscélico ou picada de aranha marrom?

Primeiro, temos que saber que existem três gêneros de aranhas de importância médica: Phoneutria, Loxosceles e Latrodectus. É necessária a notificação compulsória segundo gênero da aranha, e de acordo com o SINAN, essas são as frequências dos acidentes: Loxoscelismo 66%, Foneutrismo 33% e Latrodectismo 1%. Para sabermos o que é o acidente loxoscélico, temos que conhecer a famosa aranha marrom e suas características.

Para compreender o tratamento da picada de aranha marrom, primeiro é preciso entender seu comportamento.
A famosa aranha marrom. Até que é bonitinha, né? (Fonte: Syngenta)

Para começo de conversa: elas são aranhas pequenas de cor marrom esverdeada e forma de violino no cefalotórax, de difícil percepção. Possuem hábito noturno, domiciliar e peridomiciliar (encontradas em árvores, telhas, tijolos, móveis, roupas e calçados — a “periferia” das casas).  Não são agressivas, e só picam quando são ameaçadas, comprimidas contra o corpo durante o sono ou ao se vestir. A picada de aranha marrom é mais frequente em adultos com distribuição centrípeta das picadas, acometendo coxa, tronco ou braço.

Guarda a foto para não esquecer!

Como é a ação do veneno? Através da enzima esfingomielinase-D, que por ação direta e indireta atua nos componentes das membranas celulares, principalmente endotélio e hemácias. Essa ação ativa o sistema complemento, coagulação e plaquetas, desencadeando intenso processo inflamatório, obstrução de pequenos vasos no local da picada, edema, hemorragia, necrose focal e hemólise intravascular (nas formas graves).

Quais os sintomas da picada de aranha marrom?

A picada quase sempre é imperceptível e o quadro clínico decorrente do envenenamento é classificado em forma cutânea e cutânea-hemolitica.

Cutânea

É a forma clínica mais frequente (99%) e tem instalação tardia, lenta e progressiva. É limitado e normalmente sem gravidade. Inicia com dor discreta após picada e regride rápido, após 8 horas a dor em queimação reaparece juntamente com edema e eritema. O pico da piora é entre 24 e 72 horas.

A placa marmórea é a lesão característica: ponto de lesão hemorrágica (bolha central), área de equimose mesclada com eritema violáceo e palidez (área de pouca perfusão/isquemia), circundado por edema endurado. Pode evoluir para necrose seca (escara), em 7 a 12 dias; em 3 a 4 semanas, destaca-se, deixando uma úlcera de difícil cicatrização.

Também podem ser observados nas primeiras 24 horas: astenia, febre, cefaléia, exantema maculopapular pruriginoso, mialgia, náusea, vômito, tontura

Cutâneo-visceral (hemolítica)

Rara (1%) e desproporcional ao acometimento cutâneo. Ocorre hemólise intravascular: anemia aguda (hemolítica), icterícia (predomínio bilirrubina indireta) e hemoglobinúria em até 72 horas da picada. Pode evoluir para insuficiência renal aguda, de etiologia multifatorial (diminuição da perfusão renal, hemoglobinúria e CIVD), principal causa de óbito.

Ainda não conseguiu entender? Dá uma olhada nas imagens!

Área de sufusão hemorrágica com ponto da inoculação fazendo área de necrose (5° dia pós acidente).

Placa marmórea com sufusão hemorrágica central (em cima à esquerda). Área de bolha e placa marmórea – reação inflamatória com diminuição da perfusão tecidual (em cima à direita). Área de sufusão com área esbranquiçada indica piora de perfusão tecidual (embaixo à esquerda). Ponto central da lesão que diferencia dos outros acidentes (embaixo à direita).
Área de sufusão com ponto da picada (1° dia pós acidente). Aumento da área de lesão (2° dia pós acidente). Área de necrose (16° dia pós acidente). Excisão cirúrgica (30° dia pós acidente).

O paciente chegou! E agora? Como tratar a picada de aranha marrom?

Fique calmo, o diagnóstico é clínico! Alguns exames complementares podem ajudar a identificar complicações: hemograma com leucocitose com neutrofilia, anemia (diminuição da Hb e Ht), reticulocitose e plaquetopenia; aumento da bilirrubina total com predomínio da indireta; aumento de CPK, DHL e AST se lesão muscular; alteração de coagulograma.

O tratamento comum para todas as picadas de aranha é feito pela limpeza local da ferida, analgesia e compressas frias para reduzir a dor, elevação do membro, profilaxia antitetânica e observação. A maioria das reações locais responde a tais medidas. 

Se infecção secundária antibióticoterapia com cefalexina. Realizar debridamento, quando necrose bem delimitada (geralmente após 1 semana) e tratamento cirúrgico pode ser necessário no manejo das úlceras e correção de cicatrizes. Para complicações: transfusão sanguínea, se anemia intensa e manejo da IRA com diálise. 

Específico

Forma cutânea: 5 ampolas de soro antiaracnídico (SAA) ou soro antiloxoscélico (SALox). Além de prednisona e anti-histamínico nos 3 primeiros dias.

Forma cutâneo-hemolítica: 10 ampolas de SAA ou de SALox e corticoterapia. 

Lembrando que a eficácia da soroterapia é reduzida após 36 horas da picada.

Se liga na tabela:

ClassificaçãoManifestações clínicasTratamento
Leve– Loxosceles identificada como agente causador do acidente
– Lesão característica
– Sem comprometimento do estado geral
– Sem alterações laboratoriais
Sintomático: acompanhamento até 72 horas após a picada*
Moderado– Com ou sem identificação da Loxosceles no momento da picada
– Lesão sugestiva ou característica
– Alterações sistêmicas (rash cutâneo, petéquias)
– Sem alterações laboratoriais sugestivas de hemólise
Soroterapia: cinco ampolas de SAAr** IV e/ou
Prednisona: adultos 40 mg/dia; crianças 1 mg/kg/dia durante 5 dias
Grave– Lesão característica
– Alteração no estado geral: anemia aguda, icterícia
– Evolução rápida
– Alterações laboratoriais indicativas de hemólise
Soroterapia: dez ampolas de SAAr IV e
Prednisona: adultos 40 mg/dia; crianças 1 mg/kg/dia durante 5 dias
* Pode haver mudança de classificação durante esse período.
** SAAr: soro antiaracnídico

“Não lembro de todos os sintomas e tratamento, o que eu faço?”. Ficha de Notificação Compulsória! Nela você irá achar, de forma detalhada, os tipos de acidentes, o gênero, os sintomas e o tratamento. Dá uma olhada em como ela é um resumão de tudo que conversamos:

É isso! Já tá sabendo como tratar a picada de aranha marrom?

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Pra cima!

*Colaborou Isabela Yamane Faitaroni, aluna de Medicina da USF

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AnuarSaleh

Anuar Saleh

Nascido em 1993, em Maringá, se formou em Medicina pela UEM (Universidade Estadual de Maringá) e hoje é residente em Medicina de Emergência pelo Hospital Israelita Albert Einstein e também editor e professor do PSMedway.