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Transtorno da Personalidade Borderline: saiba mais

Fala, pessoal! Hoje é dia de falar sobre o Transtorno da Personalidade Borderline, um tema muito conhecido dentro da área de Psiquiatria. Neste artigo, vamos aprofundar o tema para que você aprofunde seus conhecimentos e consiga diferenciá-lo de outros transtornos.

E aí, bora lá?

Para começar: o que é um transtorno da personalidade?

Antes de conversarmos sobre o Borderline, é importante termos em mente a definição de um transtorno de personalidade. O DSM-5 definiu o transtorno de personalidade como um padrão persistente de experiências internas e de comportamento, que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo. 

O padrão é inflexível, começa na adolescência ou no início da idade adulta e é estável ao longo do tempo. Gera sofrimento e prejuízo, e se manifesta em pelo menos duas das quatro áreas: 

  • cognição;
  • afetividade;
  • funcionamento interpessoal;
  • controle de impulsos.

Existem três grupos de transtornos de personalidade, agrupados de acordo com características em comum entre eles. É importante ter em mente que as pessoas podem, com frequência, exibir traços que não se limitam a um único transtorno de personalidade. 

  • Grupo A: inclui três transtornos de personalidade com características estranhas ou de afastamento, com os subtipos paranoide, esquizotípico e esquizóide;
  • Grupo B: inclui quatro transtornos com características dramáticas, impulsivas ou erráticas, com os subtipos narcisista, borderline, histriônico e antissocial;
  • Grupo C: inclui três transtornos que compartilham características de ansiedade e medo, com os subtipos evitativa, dependente e obsessivo-compulsivos. 
Transtorno da Personalidade Borderline: saiba mais
Saiba mais sobre o Transtorno da Personalidade Borderline

Qual é o funcionamento de um borderline?

Indivíduos com transtorno de personalidade borderline têm como característica uma instabilidade extraordinária do afeto, do humor, das relações com os outros e consigo mesmos. 

Além da instabilidade, há ainda uma marcada impulsividade em diversas áreas da vida. É importante ainda o reconhecimento do sentimento de vazio crônico que por vezes eles conseguem contar. O sofrimento causado por esse transtorno é intenso, tanto no indivíduo como em quem está ao seu redor.

O terror do abandono

Os indivíduos com o transtorno da personalidade borderline tentam, a todo custo, evitar abandono, a separação ou rejeição, sendo que às vezes tais percepções de desamparo são apenas imaginárias devido a distorções cognitivas e afetivas de como interpretam as relações com o outro. 

Eles vivenciam medos intensos de abandono e experimentam raiva inadequada mesmo diante de uma separação curta ou inevitável.  Os esforços desesperados para evitar o abandono podem incluir ações impulsivas como automutilação ou comportamentos suicidas. 

Teorias psicodinâmicas enfatizam a prevalência de perdas e separações precoces nos antecedentes dos pacientes com estruturação da personalidade borderline. As experiências de abuso e negligência também estão, em geral, ligadas com padrões de apego problemático manifestados por esses pacientes. 

Da idealização à desvalorização

O indivíduo borderline encontra dificuldades em integrar visões positivas e negativas do outro e de si mesmo. Isso leva a uma segregação de figuras totalmente más ou totalmente boas. 

Podem idealizar cuidadores ou companheiros potenciais em um primeiro ou segundo encontro, demandar ficar o tempo todo juntos e partilhar detalhes pessoais mais íntimos logo no início de um relacionamento. No entanto, podem mudar rapidamente da idealização à desvalorização, sentindo que a outra pessoa não se importa o suficiente, não dá o suficiente e não está presente o suficiente. 

As manifestações patológicas de percepção do outro, em geral, representam desilusão com um cuidador cujas qualidades de dedicação haviam sido idealizadas ou cuja rejeição ou abandono era esperado. 

Instabilidade da autoimagem

Há uma instabilidade profunda da percepção de si mesmo e da própria imagem e identidade. Mudanças súbitas e dramáticas acontecem na autoimagem. Podem ocorrer mudanças repentinas em opiniões e planos sobre carreira profissional, identidade sexual, valores e tipos de amigos. 

Essas experiências ocorrem geralmente em situações nas quais o indivíduo sente falta de relações de apego seguro, de cuidado e de apoio. A desregulação do afeto e cognição parecem levar a dificuldades intensas no desenvolvimento de um senso estável de identidade.

Impulsividade

Comportamentos impulsivos e autodestrutivos são comuns e podem se manifestar em diversas formas:

  • gastar dinheiro de forma irresponsável;
  • comer compulsivamente;
  • abusar de substâncias;
  • envolver-se em sexo desprotegido;
  • dirigir de forma imprudente;
  • etc. 

Pode ainda acontecer de largarem um emprego, mesmo precisando dele, ou terminarem um relacionamento que tinha potencial de durar. Assim, eles sabotam o próprio sucesso. 

Suicidalidade e Automutilação

Comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou a automutilação são comuns nos indivíduos com transtorno de personalidade borderline. Aproximadamente 8 a 10% dessas pessoas acabam tirando a própria vida, sendo que atos de automutilação e tentativas de suicídio são muito comuns. 

A percepção do desejo de morte e ideação suicida recorrente é frequentemente o que leva essas pessoas a buscarem ajuda. Os atos e gestos autodestrutivos são muitas vezes precipitados por ameaças de abandono e rejeição ou por expectativas de que o indivíduo assuma maiores responsabilidades.

A automutilação, por vezes, ocorre durante experiências dissociativas e com frequência traz alívio por dar ao borderline a capacidade de sentir. Estudos neurobiológicos mostram que uma desregulação da função opioide endógena parece desempenhar um papel nos pacientes com transtorno de personalidade borderline. O déficit inato de opioide pode significar que os pacientes estão se regulando ao se cortarem.

Instabilidade afetiva

Os indivíduos podem experienciar marcadas e repetidas alterações do humor no curso de um único dia, com flutuações de momento a momento tendo, frequentemente, estressores ambientais como gatilhos. 

Períodos de humor estável podem alternar com episódios de tristeza, ansiedade e irritabilidade. Rompantes de raiva motivados por insatisfação com um cuidador podem ser comumente seguidos por sentimentos de vergonha, culpa ou de desvalia. 

Vazio crônico

Indivíduos com o transtorno de personalidade borderline podem ser tomados por sentimentos crônicos de vazio. Vazio crônico, apesar de uma definição diagnóstica típica explicitada no DSM-5, é um fenômeno subjetivo e de difícil conceitualização. 

No entanto, é um importante fator preditor da suicidalidade. Pode englobar sentimentos de não pertencimento, isolamento, desconexão com o mundo e as pessoas ao redor, além de uma sensação de incompletude pessoal ou falta de propósito em viver. 

Raiva intensa e inapropriada

Os pacientes com transtorno de personalidade borderline demonstram expressões de raiva e irritabilidade intensa em contextos que tal intensidade de manifestação se mostra inapropriada e descabida. 

Há, ainda, uma dificuldade acentuada de controlar os sentimentos transbordantes, levando muitas vezes, a episódios de agressividade física. A intensidade da raiva em pacientes com transtorno de personalidade borderline pode obscurecer o sofrimento velado que acompanha o transtorno. 

Um temperamento vulnerável e hiperreativo pode ser suscitado por experiências precoces de trauma ou negligência.

Ideação paranoide transitória

Durante períodos de estresse extremo, podem ocorrer ideação paranoide ou sintomas dissociativos transitórios como despersonalização. Essas manifestações ocorrem comumente em resposta a um abandono real ou imaginado. Os sintomas tendem a ser passageiros, durando de minutos a horas. O retorno real ou percebido da dedicação do cuidador pode resultar em remissão dos sintomas.

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS DO TRANSTORNO DA PERSONALIDADE BORDERLINE
Um padrão difuso de instabilidade das relações interpessoais, da autoimagem e dos afetos e de impulsividade acentuada que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, conforme indicado por cinco (ou mais) dos seguintes:
1.Esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginado.
2.Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização.
3.Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e persistente da autoimagem ou da percepção de si mesmo.
4. Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas (p. ex., gastos, sexo, abuso de substância, direção irresponsável, compulsão alimentar).
5.Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento auto-mutilante.
6.Instabilidade afetiva devida a uma acentuada reatividade do humor (p.ex.,disforia episódica, irritabilidade ou ansiedade intensa com duração geralmente de poucas horas e apenas raramente de mais de alguns dias).
7.Sentimentos crônicos de vazio.
8.Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la (p. ex., mostras frequentes de irritação, raiva constante, brigas físicas recorrentes).
9.Ideação paranoide transitória associada a estresse ou sintomas dissociativos intensos.

Tabela 1. Critérios diagnósticos do transtorno de personalidade borderline. Fonte: American Psychiatric Association – APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Aspectos demográficos do Transtorno da Personalidade Borderline

Estima-se que a prevalência média do transtorno da personalidade borderline na população geral seja de 1,6%, embora possa chegar a 5,9%. Em contextos de atenção primária, a prevalência é de aproximadamente 6%. Já em pacientes de ambulatórios de saúde mental, a prevalência chega a 10% e em torno de 20% entre pacientes psiquiátricos internados. 

As mulheres são muito mais frequentemente diagnosticadas com transtorno de personalidade borderline. No entanto, em estudos epidemiológicos, a prevalência do transtorno borderline ao longo da vida mostrou-se não diferir entre homens e mulheres, demonstrando, assim, que a discrepância das amostras clínicas é explicada pelo fato de que as mulheres têm mais tendência a buscar tratamento.

Etiologia do Transtorno da Personalidade Borderline

Sugere-se que a etiologia do transtorno de personalidade borderline seja multifatorial. Há três fatores que foram propostos. O primeiro deles é a criação em um ambiente doméstico traumático e caótico, envolvendo: 

  • separações precoces;
  • negligência;
  • desarmonia emocional na família;
  • insensibilidade aos sentimentos e às necessidades da criança;
  • trauma em graus variados. 

O segundo fator é um temperamento vulnerável que teria uma base biológica. O terceiro fator tem relação a eventos desencadeadores que funcionam como gatilhos, como a tentativa de estabelecer um relacionamento íntimo e sair de casa. Há, ainda, a participação em eventos traumáticos, como ser vítima um estupro ou outras formas de violência.

Tratamento do Transtorno da Personalidade Borderline

Abordagens psicoterapêuticas do Transtorno da Personalidade Borderline

A abordagem psicoterápica é a primeira linha no tratamento para Transtorno de Personalidade Borderline. A linhas de psicoterapia com evidência para borderline são:

  • Terapia Comportamental Dialética;
  • Terapia Baseada em Mentalização;
  • Terapia focada na Transferência;
  • Terapias Cognitivo Comportamentais;
  • Terapia do Esquema.

Farmacoterapia

Embora a Associação Americana de Psiquiatria, em suas diretrizes para o tratamento de pacientes com o transtorno da personalidade borderline, recomende tanto a psicoterapia quanto o uso de medicamentos, nos últimos anos, o entusiasmo pelos medicamentos vem diminuindo. 

Não há, até o momento, a constatação de medicamentos drasticamente úteis ou efetivos. O tratamento farmacológico recomendado hoje é para sintomas persistentes e incapacitantes que não tiveram remissão ou melhora com estratégias psicoterápicas, sendo que a estratégia farmacológica é orientada pelo sintoma alvo. Os sintomas alvo se dividem em três principais domínios:

  • Sintomas de percepção-cognitivos: Dissociação, perturbação da identidade, ideação paranóide. Para tais sintomas, antipsicóticos em baixa dose são recomendados;
  • Comportamentos impulsivos: Auto-mutilação, exposição a riscos, comer compulsivamente. Para sintomas na linha da impulsividade e descontrole do comportamento, os estabilizadores do humor parecem ter maior utilidade em comparação com antidepressivos e antipsicóticos;
  • Desregulação emocional: Labilidade do humor, irritabilidade, raiva e ansiedade. Meta-análises apontam que estabilizadores do humor e antipsicóticos em baixa dose são mais efetivos para desregulação emocional do que antidepressivos. 

Sobre o Transtorno da Personalidade Borderline, é isso! 

É isso, pessoal! Esperamos que tudo tenha ficado claro e que você tenha compreendido o conteúdo!

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Referências bibliográficas

  1. American Psychiatric Association – APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  2. Gabbard, G. O. Psiquiatria psicodinâmica na prática clínica. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
  3. UpToDate. Approach to treating patients with borderline personality disorder. Acessado em 05/01/2022
  4. UpToDate. Borderline personality disorder: Epidemiology, pathogenesis, clinical features, course, assessment, and diagnosis. Acessado em 05/01/2022
  5. Neto, Alfredo Cataldo (Org.). Psiquiatria para estudantes de medicina . EDIPUCRS. Kindle Edition. 

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Maria AlicePedron Carneiro

Maria Alice Pedron Carneiro

Catarinense, nascida em Xanxerê em 1993. Formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em 2019. Atualmente no segundo ano da residência médica em Psiquiatria no Hospital de Clínicas de Porto Alegre/ UFRGS. Aprendendo sobre as manifestações da mente e da alma, aquilo que chamam de loucura.