Conteúdo atualizado em: 19/05/2026 – A hepatite fulminante, atualmente mais frequentemente descrita nas diretrizes como insuficiência hepática aguda, é uma emergência médica caracterizada por lesão hepática grave com rápida deterioração clínica, coagulopatia e encefalopatia hepática em paciente sem doença hepática crônica conhecida.
O reconhecimento precoce é decisivo porque a evolução pode incluir edema cerebral, infecção, insuficiência renal, instabilidade hemodinâmica e necessidade urgente de transplante hepático.
Na prática, o valor do tema está em três pilares: identificar a etiologia reversível, oferecer suporte intensivo de alta qualidade e encaminhar precocemente para centro transplantador.
A sobrevida sem transplante varia conforme a causa, mas melhorou nas últimas décadas com terapia intensiva moderna e transplante em casos selecionados.
A hepatite fulminante corresponde à forma clássica de insuficiência hepática aguda. Os critérios centrais incluem:
Não confunda com a insuficiência hepática aguda sobre crônica (ACLF), que é uma entidade diferente com fisiopatologia e manejo distintos.
A fisiopatologia envolve necrose ou disfunção hepatocelular maciça, com perda rápida das funções de síntese, depuração e regulação metabólica do fígado. Como consequência, surgem:
O risco de morte relaciona-se fortemente ao edema cerebral e à progressão para falência de múltiplos órgãos. A elevação aguda de amônia contribui para edema cerebral por edema astrocitário, e esse risco é maior em pacientes com encefalopatia avançada, necessidade de vasopressores e insuficiência renal associada.
As principais causas de hepatite fulminante variam conforme a região geográfica. Entre as etiologias mais relevantes estão:
O quadro inicial pode lembrar hepatite aguda inespecífica, com:
Com a progressão, aparecem sinais de gravidade:
O diagnóstico da hepatite fulminante é clínico-laboratorial. Deve ser suspeitado diante de paciente sem cirrose conhecida que apresenta:
Todo paciente com hepatite fulminante deve ser manejado em ambiente de terapia intensiva e, idealmente, com avaliação precoce por centro de transplante hepático.
O tratamento se baseia em:
As principais condutas incluem:
Na toxicidade por paracetamol, a N-acetilcisteína deve ser administrada prontamente. Ela também pode ser considerada em formas não relacionadas ao paracetamol, sobretudo em fases iniciais da insuficiência hepática aguda, pois pode melhorar desfechos em subgrupos selecionados.
Pacientes com encefalopatia avançada têm alto risco de edema cerebral.
Nível >150 µmol/L na admissão e hiperamonemia persistente nos primeiros 3 dias predizem fortemente herniação cerebral e pior sobrevida.
O manejo inclui:
A coagulopatia deve ser monitorada, mas a correção laboratorial rotineira com plasma fresco congelado não é recomendada apenas para normalizar o INR. Em geral, hemoderivados ficam reservados para:
O risco infeccioso é elevado, mas isso não significa antibioticoterapia empírica universal para todos. A conduta deve ser guiada por:
Devem ser corrigidos rapidamente:
A hipotensão é tratada inicialmente com ressuscitação criteriosa, seguida de vasopressores quando necessário, especialmente noradrenalina em cenários compatíveis com choque vasodilatatório.
O prognóstico da hepatite fulminante depende fortemente da etiologia, da velocidade de progressão, do grau de encefalopatia, do lactato, do INR, da função renal e da resposta ao suporte intensivo. A sobrevida sem transplante é melhor em algumas causas, como paracetamol, do que em formas indeterminadas ou por doença de Wilson.
Os critérios de King’s College seguem sendo ferramenta clássica de estratificação prognóstica e apoio à decisão de transplante, mas não devem ser usados isoladamente. O julgamento clínico e a avaliação por equipe transplantadora continuam fundamentais.
Para casos relacionados ao paracetamol, os critérios clássicos incluem:
ou
Para casos não relacionados ao paracetamol:
ou
A hepatite fulminante é uma emergência hepatológica e intensiva que exige diagnóstico rápido, investigação etiológica ampla e suporte agressivo desde a admissão.
O ponto central para estudo e prática é entender que a mortalidade depende tanto da gravidade da lesão hepática quanto da velocidade com que se reconhecem edema cerebral, infecção, lesão renal e necessidade de transplante.
Na tomada de decisão, os pilares são objetivos: confirmar insuficiência hepática aguda, dosar gravidade com exames seriados, iniciar tratamento específico quando houver, internar em UTI e discutir precocemente com centro transplantador. Esse raciocínio é o que mais diferencia a condução segura do paciente crítico.
Cofundador da Medway, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e com Residência Clínica Médica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e Administração em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE). Siga no Instagram: @joaodamedway