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Pericardite aguda: conceito, tipos, diagnósticos e tratamento

Fala moçada, tudo certo? Esperamos que sim, porque hoje o papo é complicado: pericardite aguda!

A gente não tem como saber se esse é um daqueles assuntos dos quais você nunca ouviu falar, ou se já ouviu falar na faculdade e não lembra nada, ou o que quer que seja. Mas não importa: nós vamos te explicar tudo que você precisa saber, nesse post!

Bora lá?

Imagem ilustrativa sobre pericardite aguda
Se você quer saber tudo sobre pericardite aguda, continue lendo!

Primeiro: o que é pericardite?

Apesar de o foco do post de hoje ser a pericardite aguda em específico, existem outros tipos de pericardite. Não vamos nos aprofundar neles hoje, mas é bom ter essa noção para não afunilar demais sua visão do assunto.

A pericardite é um processo inflamatório do pericárdio, podendo ser primário ou secundário e também podendo cursar com ou sem derrame pericárdico.

Além da pericardite aguda, que é a mais comum, existem outros tipos que são classificados de acordo com a evolução e a forma de apresentação clínica, sendo eles: pericardite crônica (dura mais de 3 meses), derrame pericárdico e tamponamento cardíaco, pericardite constritiva e pericardite recorrente.

Etiologia (causas)

Existem várias causas de pericardite. Algumas delas são:

  1. Doenças infecciosas: vírus coxsackie A e B (mais comum), adenovírus, tuberculose, doenças fúngicas e parasitárias, entre outras;
  2. Doenças autoimunes: lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide, espondilite anquilosante, febre reumática, esclerodermia, dermatomiosite, etc;
  1. Doenças de órgãos adjacentes: infarto agudo do miocárdio (nos três primeiros dias conhecida como pericardite epistenocárdica, enquanto a que ocorre de forma tardia, de três semanas a seis meses, conhecida como Síndrome de Dressler), dissecção de aorta, miocardites, doenças do esôfago;
  1. Neoplasias: mesotelioma, sarcoma, fibroma, neoplasias de pulmão, etc;
  1. Traumas diretos e indiretos.

Pericardite aguda

Agora sim, vamos entrar mais a fundo na pericardite aguda em específico, destrinchando um pouco mais aspectos como achados clínicos, como fazer seu diagnóstico e como tratá-la. Uma coisa de cada vez, hein? Vamo que vamo!

Sintomas

Os pacientes com pericardite aguda evoluem com dor torácica que piora com a inspiração e melhora ao sentar-se com flexão anterior do dorso, associado a um quadro febril

No exame físico desses doentes é possível encontrar o atrito pericárdico no exame de ausculta cardiovascular, além das bulhas hipofonéticas se derrame pericárdico.

Principais causas

As principais causas da pericardite aguda são:

  • Infecções virais, bacterianas, parasitárias ou fúngicas;
  • AIDS;
  • Tuberculose;
  • Aspergilose;
  • Ataque cardíaco ou cirurgia cardíaca;
  • Lúpus eritematoso sistêmico;
  • Câncer ou radioterapia;
  • Febre reumática.

Diagnóstico da pericardite aguda

Para o diagnóstico de pericardite aguda são necessários 2 dos 4 critérios:

  1. Dor torácica;
  1. Atrito pericárdico;
  1. Alterações no ECG;
  1. Efusão pericárdica.

Exames complementares

Primeiro vamos falar sobre o que é talvez um dos maiores medos de todos os médicos que trabalham na emergência, o ecg da pericardite aguda, com a temida confusão com o ecg da isquemia aguda.

ECG de pericardite aguda.
(Créditos: RCEM Learning)

Quando olhamos para esse ecg precisamos lembrar da diferença entre o supra da isquemia aguda e da pericardite aguda, sendo o da pericardite aguda um supra desnivelamento de ST difuso, não respeitando área irrigada por uma só artéria coronariana, com infra desnivelamento de ST em AVR e V1. Além disso, temos infra desnivelamento do intervalo PR na maioria das derivações. 

A troponina deve ser solicitada em todos os casos suspeitos de pericardite aguda para avaliar o comprometimento miocárdico associado (miopericardite).

A proteína C reativa (PCR) é fundamental para avaliação diagnóstica (porém o PCR dentro do valor de normalidade não afasta o diagnóstico) e para avaliação terapêutica.

A radiografia de tórax é um exame normalmente solicitado e pode mostrar aumento da área cardíaca, principalmente em derrames pericárdicos com mais de 200 ml e também se há pericardite constritiva (tema explicado mais a frente).

A ecocardiografia é o exame mais importante pois permite confirmar a presença e quantificar o derrame pericárdico e verificar se há tamponamento cardíaco. Em alguns casos podemos ter pericardite aguda com ecocardiografia normal, denominada “pericardite aguda seca”.

Pode-se pedir tomografia computadorizada e ressonância nuclear magnética miocárdica em casos de dúvida ou selecionados.

A biópsia pericárdica está indicada quando a pericardite é refratária ao tratamento clínico instituído, sem o diagnostico etiológico definitivo.

Apesar de todo rastreio e investigação, grande parte dos casos ainda é classificado como idiopática.

E, se você ainda tem dúvidas sobre interpretação de ECG, sugiro que dê uma olhada no nosso e-book gratuito ECG Sem Mistérios, que traz informações que todo médico precisa saber sobre esse exame, incluindo as as 5 principais etapas na hora da análise sistemática de um ECG.

Como tratar pericardite aguda?

Normalmente, a hospitalização é realizada para definição etiológica do quadro.

Os anti-inflamatórios não hormonais são os principais medicamentos para a pericardite idiopática e a viral. Os mais usados são o ibuprofeno, o naproxeno e o AAS, sendo também usado a colchicina. O tratamento é realizado por cerca de 14 dias e pode ser acompanhado pelo nível de PCR.

Os corticoides podem ser usados em casos de refratariedade ao uso de anti-inflamatórios não hormonais e a colchicina, e também quando a pericardite é secundária a doença autoimune, doença do tecido conjuntivo ou a pericardite urêmica.

Derrame pericárdico e tamponamento cardíaco

A principal complicação da pericardite aguda é o tamponamento cardíaco. Isso ocorre quando o saco pericárdico normalmente possui entre 30 e 50 ml de líquido. Quando ocorre acúmulo de líquido que supera a capacidade de distensão fibroelástica do pericárdio pode ocorrer compressão das câmaras cardíacas, normalmente as câmaras direitas pois estas trabalham com menor pressão.

Normalmente esse paciente evolui com sinais e sintomas clínicos clássicos de tamponamento cardíaco, como turgência jugular, hipofonese de bulhas e hipotensão, a chamada Tríade de Beck. Além disso pode haver pulso paradoxal e dispneia. A velocidade com que o derrame pericárdico é instalado é fundamental para a evolução em tamponamento cardíaco.

O derrame pericárdico é classificado pela ecocardiografia em leve caso menor que 10 mm, moderado entre 10 e 20 mm e grave caso maior que 20 mm.

Em casos sintomáticos e com derrame maior que 20 mm normalmente é necessário pericardiocentese, também conhecida por “punção de Marfan“. Esse líquido deve ser encaminhado para análise e definição etiológica.

A dissecção de aorta é uma das principais contraindicações a pericardiocentese devido poder aumentar o sangramento.

Na imagem do ecg vemos as características clássicas do derrame pericárdico: baixa amplitude do QRS em algumas derivações associado a alternância de amplitude do QRS.

Imagem ecocardiográfica de derrame pericárdico, um outro tipo de pericardite.
Imagem ecocardiográfica de derrame pericárdico (Créditos: Stritch)

Pericardite constritiva

pericardite constritiva é decorrente do espessamento do pericárdio, com restrição do enchimento diastólico do coração e evolução para a diminuição do débito cardíaco. Normalmente a pericardite constritiva ocorre após um quadro de pericardite aguda, muitas vezes associada a tuberculose. Recorrentemente a pericardiectomia é o tratamento de escolha.

Raio-X ilustrando um caso de pericardite constritiva

Pericardite recorrente

A pericardite recorrente ocorre em torno de 18 a 20 meses após um episódio inicial de pericardite que foi resolvida, sendo classificada como intermitente (período sem sintoma na ausência de tratamento) ou incessante (a suspensão do tratamento faz com que os sintomas apareçam).

O tratamento pode ser realizado com colchicina e corticosteroides, podendo ser usado azatioprina e ciclosporina em casos refratários e pericardiectomia em casos muitos sintomáticos ou refratários a terapêutica realizada.

Por ora, é só! Esclarecemos suas dúvidas sobre a pericardite aguda?

Esperamos que o post tenha te ajudado a entender melhor alguns dos tipos de pericardite e, principalmente, a pericardite aguda! Pouco a pouco, você fica cada vez mais preparado pra qualquer situação.

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Enfim, é isso! Até mais!

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ViníciusRodrigues

Vinícius Rodrigues

Nascido em 1993, formado pela Universidade de Santo Amaro (Unisa). Residente de Clínica Médica da Santa Casa de São Paulo, apaixonado por Emergências clínicas, pelo aprendizado e pelo ensino.