A Encefalopatia Hepática (EH) representa uma das complicações mais graves e desafiadoras das doenças hepáticas, caracterizando-se por uma deterioração da função do Sistema Nervoso Central (SNC) devido ao acúmulo de substâncias neurotóxicas no sangue.
Este artigo aborda os critérios diagnósticos, a fisiopatologia e a classificação clínica necessária para o manejo seguro no ambiente de emergência.
Definição e fisiopatologia da Encefalopatia Hepática
A Encefalopatia Hepática (EH) é uma síndrome neuropsiquiátrica decorrente da insuficiência hepática e/ou do desvio de sangue portal para a circulação sistêmica (shunts portossistêmicos)
Mecanismo: O fígado disfuncional falha em metabolizar substâncias tóxicas, como a amônia, que atravessam a barreira hematoencefálica e comprometem a função cerebral.
Apresentação: Pode ocorrer de forma aguda ou crônica, sendo um marcador crítico de descompensação em pacientes com cirrose.
Etiologia e fatores precipitantes da Encefalopatia Hepática
Embora a fisiopatologia exata ainda possua lacunas em estudo, a EH está intrinsecamente ligada à insuficiência hepática e à hipertensão portal.
No pronto-socorro, é fundamental identificar gatilhos que precipitam o quadro:
Hemorragia Digestiva: Sangramento varicoso aumenta a carga de nitrogênio no intestino.
Infecções: Especialmente a Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE).
Distúrbios Metabólicos: Uremia e desequilíbrios eletrolíticos como hiponatremia.
Desidratação / Uso excessivo de diuréticos: aumento da concentração sanguínea
Constipação: amônia é eliminada pelas fezes
Manifestações clínicas e sintomas da Encefalopatia Hepática
A apresentação clínica da EH é ampla, variando de alterações cognitivas sutis ao coma profundo.
Alterações do nível de consciência e sono
Ciclo Sono-Vigília: Inversão característica, com sonolência diurna e insônia noturna.
Cognição: Desorientação temporoespacial, confusão mental, esquecimento e letargia.
Alterações de comportamento e neurológicas
Personalidade: Irritabilidade, agressividade ou apatia.
Fala: Disartria ou fala arrastada.
Atenção: A presença de déficit neurológico focal deve alertar para diagnósticos diferenciais, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Motor: O flapping ou asterix é um sinal neurológico clássico evidenciado pela incapacidade do paciente em manter a postura de extensão dos punhos.
Manobra: Solicita-se que o paciente estenda os braços e realize a dorsiflexão dos punhos. O sinal é positivo quando ocorre um movimento súbito e rítmico de flexão para a frente.
Diagnóstico Diferencial: O flapping não é patognomônico da EH, podendo ocorrer em casos de uremia, hipercapnia e hipomagnesemia.
A gravidade da Encefalopatia Hepática é categorizada pelos Critérios de West Haven, essenciais para o acompanhamento evolutivo do paciente.
Estágio
Achados Clínicos e Neurológicos
0
Sem alteração clínica detectável; identificada apenas em testes psicomotores.
1
Leve falta de atenção, alteração do padrão de sono, euforia ou depressão.
2
Letargia, apatia, desorientação temporal, comportamento inadequado e asterix discreto.
3
Estupor, mas responsivo a estímulos; desorientação acentuada e asterix evidente.
4
Coma (ausência de resposta a estímulos).
Referências e Fontes
Conteúdo técnico adaptado de diretrizes de manejo em hepatopatias e cirrose.
Classificação de gravidade baseada nos Critérios de West Haven.
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Paulista, nascido em 89. Médico graduado pela Universidade de Santo Amaro (UNISA), formado em Clínica Médica pelo HCFMUSP, Cardiologista e especialista em Aterosclerose pelo InCor-FMUSP. Experiência como médico assistente do Pronto-Socorro do InCor-FMUSP.