As Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) compõem um grupo de agravos infecciosos que não são raras, exóticas e tampouco desconhecidas, mas são, sobretudo, doenças de desigualdade.
Estão fortemente associadas à pobreza, à falta de saneamento básico, à moradia precária e à dificuldade de acesso contínuo aos serviços de saúde.
No Brasil, estima-se que cerca de 30 milhões de pessoas estejam sob risco de adoecimento por DTNs, número que reflete não apenas a circulação dos agentes infecciosos, mas também as vulnerabilidades sociais persistentes.
Entre as mais relevantes no cenário nacional estão a Doença de Chagas, Esquistossomose, Filariose Linfática, Hanseníase, Leishmanioses (tegumentar e visceral), Oncocercose, Raiva Humana, Tracoma e os Acidentes Ofídicos.
Na prática da APS, o desafio não é apenas reconhecer a doença, mas suspeitar dela no momento certo, diante de sintomas frequentemente inespecíficos, como febre prolongada, emagrecimento, dor abdominal ou lesões cutâneas. Bora revisar os principais conceitos!
As arboviroses ocupam lugar central no cotidiano das unidades básicas. A Dengue costuma iniciar com febre alta de início súbito, cefaleia, mialgia intensa, dor retro-orbital e exantema.
O ponto-chave do manejo é reconhecer precocemente os sinais de alarme: dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, letargia, que indicam risco de evolução para formas graves e choque.
A Chikungunya se diferencia pela poliartralgia intensa, simétrica e frequentemente incapacitante, que pode persistir por meses, configurando a fase crônica da doença.
Já a Zika apresenta curso mais brando, com febre baixa ou ausente, exantema pruriginoso precoce, conjuntivite não purulenta e edema periarticular, mas ganha importância especial pelo risco de síndrome congênita associada à infecção na gestação.
O diagnóstico é, inicialmente, clínico-epidemiológico, podendo ser confirmado por testes laboratoriais como RT-PCR, NS1 ou sorologia, conforme o tempo de evolução.
O tratamento é suporte clínico, com hidratação adequada e analgesia, evitando-se salicilatos e anti-inflamatórios na suspeita de dengue. Todas são doenças de notificação compulsória da seguinte maneira:
A Doença de Chagas permanece atual, sobretudo em contextos rurais, periurbanos e em surtos por transmissão oral, associados ao consumo de alimentos contaminados.
Na fase aguda, o quadro pode variar desde febre prolongada, edema de face e membros e o clássico sinal de Romaña, até apresentações assintomáticas.
Na fase crônica, a doença pode permanecer indeterminada ou evoluir para formas cardíacas, digestivas ou mistas, com impacto significativo na morbimortalidade.
O diagnóstico na fase aguda é feito por exames parasitológicos diretos, enquanto na fase crônica exige dois testes sorológicos de princípios distintos.
O benznidazol é o tratamento de escolha, indicado em todos os casos agudos e nos casos crônicos recentes, especialmente em crianças e jovens.
A doença de Chagas Aguda é de notificação imediata à SES/SMS, enquanto a doença Crônica é de notificação semanal, reforçando o papel da APS na vigilância.
A Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) deve ser lembrada diante de lesões cutâneas crônicas, geralmente ulceradas, de bordas elevadas e fundo granuloso, indolores, além de possíveis acometimentos de mucosas.
O diagnóstico pode ser feito por exame parasitológico direto, biópsia ou PCR. A intradermorreação de Montenegro tem papel complementar.
O tratamento padrão inclui o antimoniato de meglumina, com destaque para a miltefosina, medicamento oral recentemente incorporado ao SUS, ampliando as opções terapêuticas na APS. A LTA é uma doença de notificação compulsória semanal.
A Leishmaniose Visceral, ou calazar, é uma doença sistêmica e potencialmente fatal. O quadro clínico inclui febre prolongada, emagrecimento, astenia, hepatoesplenomegalia e pancitopenia.
O diagnóstico pode ser feito por teste rápido, sorologia ou métodos parasitológicos. O tratamento varia conforme o perfil do paciente, utilizando-se antimoniato de meglumina ou anfotericina B lipossomal, esta última indicada em gestantes, imunossuprimidos ou casos graves.
Sem tratamento, a letalidade pode ultrapassar 90%. Os casos de leishmaniose visceral são considerados notificação compulsória semanal.
A hanseníase segue como um agravo de grande relevância na APS brasileira. Manchas na pele com alteração de sensibilidade, associadas ou não ao espessamento de nervos periféricos, devem sempre levantar suspeitas.
O diagnóstico é essencialmente clínico, e a baciloscopia auxilia na classificação operacional.
O tratamento com poliquimioterapia (PQT-U) é disponibilizado gratuitamente pelo SUS, com impacto direto na interrupção da cadeia de transmissão e na prevenção de incapacidades.
É importante lembrar que o Mycobacterium leprae tem predileção por nervos periféricos, e o dano neural é a principal causa das sequelas permanentes.
A notificação dos casos deve ocorrer de maneira compulsória semanal. Durante a vigilância do tratamento na APS, é importante se atentar a possibilidade de reações hansênicas antes, durante ou após a cura da infecção, e que nesses casos a PQT-U não deve ser suspensa:
Além disso, a investigação de contatos é a estratégia mais eficiente para quebrar a cadeia de transmissão, pois o convívio intradomiciliar aumenta o risco de adoecimento.
Nesses casos, a imunoprofilaxia é feita com BCG, sendo recomendada de acordo com o protocolo específico (uma ou duas doses dependendo do esquema vacinal prévio), para aumentar a resposta imune contra o bacilo.
Recentemente, o SUS incorporou testes rápidos (anticorpos IgM anti-M leprae) e testes moleculares especificamente para auxiliar na investigação de contatos e triagem.
Embora concentrada na Região Amazônica, a malária deve ser lembrada em todo o país diante de febre intermitente associada a história de viagem ou residência em área endêmica.
O diagnóstico é feito por gota espessa, padrão-ouro, ou testes rápidos, devendo ocorrer idealmente em até 24 horas.
O tratamento varia conforme a espécie do Plasmodium, com esquemas mundiais que incluem cloroquina, primaquina e derivados da artemisinina.
Os casos de malária na região amazônica são notificados semanalmente, enquanto os casos em região extra-Amazônica são de notificação imediata à MS, SES e SMS.
| Espécie/Situação Clínica | Tratamento de escolha | Observações gerais: |
| Plasmodium vivax | Cloroquina + Primaquina | – P. vivax é a forma mais prevalente no Brasil- Cloroquina elimina as formas sanguíneas- Primaquina elimina hipnozoítos hepáticos (previne recaídas)- Tratamento incompleto pode levar a recaídas- Em gestantes, a primaquina é contraindicada e o tratamento depende do trimestre. |
| Plasmodium falciparum (não grave) | Terapia combinada à base de derivados da artemisinina (ACT) Ex.: artemeter + lumefantrina ou artesunato + mefloquina | – Maior risco de gravidade- Nunca usar monoterapia- Esquema definido pelo protocolo nacional vigente |
| Plasmodium falciparum (grave) | Artesunato intravenoso | – Indicado em sinais de gravidade (malária grave)- Após estabilização, completar tratamento com esquema oral |
A esquistossomose apresenta fase aguda, com dermatite cercariana e febre de Katayama, e fase crônica, marcada por manifestações intestinais e hepatoesplênicas, podendo evoluir para hipertensão portal e ascite.
O diagnóstico é feito pelo exame parasitológico de fezes, especialmente pelo método Kato-Katz, e o tratamento de escolha é o praziquantel.
A notificação deve ser realizada semanalmente. O cuidado integral foca na interrupção do ciclo de transmissão, evitando o contato com águas contaminadas e melhorando as condições sanitárias.
Os acidentes por serpentes são reconhecidos pela OMS como DTNs prioritárias. Na APS, o papel central é o reconhecimento precoce do envenenamento e o encaminhamento imediato para administração do soro antiveneno específico, conforme o quadro clínico (botrópico, crotálico, laquético ou elapídico).
Os acidentes com animais peçonhentos são realizados de maneira imediata à SMS.
| Tipo de acidente / Serpente (gênero) | Quadro local | Quadro sistêmico |
| BotrópicoBothrops (jararaca) | Dor intensa, edema importante, eritema, bolhas e necrose local | Coagulopatia, sangramentos (gengival, epistaxe, hematúria) |
| CrostálicoCrotalus (cascavel) | Pouca dor e edema | Neurotoxicidade, mialgia intensa, rabdomiólise, insuficiência renal |
| LaquéticoLachesis (surucucu) | Dor e edema intensos, semelhantes ao botrópico | Sintomas vagais: náuseas, vômitos, diarreia, sudorese, hipotensão, bradicardia |
| ElapídicoMicrurus (coral verdadeira) | Discreto ou ausente | Paralisia neuromuscular progressiva, insuficiência respiratória |
Agora vamos conferir outras DNTs importantes:
| Doença | Aspectos gerais |
| Filariose linfática | – Teve transmissão interrompida no Brasil.- Doença parasitária crônica decorrente da infecção prolongada do sistema linfático;- Casos residuais crônicos (linfedema, elefantíase), sem transmissão ativa.- Não há tratamento antiparasitário rotineiro atualmente. Conduta voltada para manejo das sequelas (higiene da pele, prevenção de infecções secundárias, cuidados com linfedema) |
| Oncocercose | – Doença parasitária transmitida po moscas do gênero Simulium (os famosos borrachudos) caracterizada por prurido intenso, lesões cutâneas crônicas e acometimento ocular progressivo, podendo evoluir para cegueira.- Transmissão focal e restrita- Principalmente territórios indígenas Yanomami (Norte do país)- Tratamento: Ivermectina, em esquemas de tratamento coletivo e repetido |
| Raiva humana | – Incidência extremamente baixa;- Cursa com encefalite aguda progressiva, hidrofobia, aerofobia e alterações neurológicas;- Transmissão atual zoonótica (Atenção como foco das provas: protocolos de profilaxia para raiva); |
| Tracoma | – Infecção bacteriana crônica da conjuntiva, associa a más condições de higiene e saneamento, podendo levar à cegueira;- Baixa prevalência;- Transmissão focal, associada a pobreza e higiene precária, mais comum em comunidades vulneráveis específicas. |
Todas as DTNs prevalentes no Brasil são de notificação compulsória, o que reforça a responsabilidade da APS na vigilância em saúde, mas a periodicidade é o que difere entre elas.
Além disso, o raciocínio clínico deve sempre incorporar o contexto epidemiológico e social, pois febre, emagrecimento ou lesões cutâneas ganham outro significado quando inseridos no território certo.
Mais do que decorar protocolos, entender as DTNs é compreender que o cuidado começa antes do diagnóstico, ao reconhecer desigualdades, barreiras de acesso e determinantes sociais que perpetuam essas doenças.
É esse olhar ampliado que diferencia a prática na Atenção Primária e que a prova de residência cada vez mais cobra.
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Graduada em Medicina pela Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP), com residência em Medicina de Família e Comunidade pelo Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HC-RP).